Progredindo, mas para onde? (por Gustavo Kafruni)

Na 24ª edição do Foro de São Paulo, uma expressão foi muito presente: “governos progressistas”. Há que se admitir ao menos a lucidez no uso das palavras. O que tivemos na última década na América Latina, com algumas exceções como o caso venezuelano, foram mesmo governos progressistas. Isto é, governos que se dedicaram a evoluir dentro dos limites impostos às economias latino-americanas pelo imperialismo. Tivemos sim governos reformistas também na América, mas isso lá pelos anos 40, 50 e, por fim, 60, com a ascensão dos últimos trabalhistas, como João Goulart e a remanescência de outros, como Perón. Os governos reformistas, para que diferenciemos, são governos que, apoiados nas contradições entre capital e trabalho ou entre nação e império, procuram expandir os limites forçosamente.

O caso venezuelano, supracitado, pode ser considerado um híbrido, na medida em que nos seus anos mais dramáticos e tensos expandiu os limites, com manifestações absurdas desse embate como o sequestro do presidente Hugo Chávez, mas hoje, sem forças para continuar batalhando procura se equilibrar com uma política progressista. Claro, o projeto reformista, por mais puro-sangue, combativo e distanciado do progressismo quanto possa ser, também guarda suas limitações em relação ao mais avançado dos projetos: o revolucionário. Em determinado ponto-limite, ou o reformismo evolui para uma prática revolucionária ou tomba. Na história da Pátria Grande tem sido assim e mesmo a reorientação de projetos reformistas apenas em momentos-chave não tem sido suficiente; vide o bombardeio ao Palácio de La Moneda.

No caso brasileiro, que é o que mais nos interessa, vivemos uma clássica fase de progressismo. Enquanto foi do interesse que houvesse “avanços” – tal expressão também está muito em voga – para a classe trabalhadora e  para os setores dominantes-dominados brasileiros, de fato se avançou. A partir do momento em que a economia global se retraiu, então se estreitaram os limites do funcionamento capitalista, e o projeto progressista do PT, sintetizado na “Carta aos Brasileiros”, se tornou defasado para o capital internacional. Porque os projetos progressistas só se ocupam do governo, e não do Estado, era uma questão de tempo até que os petistas fossem escanteados e esculhambados. A bem da verdade, sempre existiu certa tranquilidade quanto a facilidade de recompor as diretrizes do país, de desfazer as mudanças superficiais feitas, o que não existiu em nenhuma experiência reformista.

Hoje os progressistas brasileiros estão muito confusos. Não sabem como reagir ao seu enterro pelos setores extremistas do neoliberalismo. Dentro da política institucional, uma alternativa palpável para que a pretensa esquerda não seja completamente patrolada seria justamente o reformismo. Mas, que esperança? Como fruto de todo o retardo da consciência política que pode ser proporcionado por décadas de relativa bonança no capitalismo, o que se tem é a propagação do politicismo mais vulgar, muito bem definido pelo companheiro Bruno Fuhr neste texto. O que todos os candidatos prometem é um governo “sem corrupção e bem administrado”. Vejam se esse não é o discurso de Ciro Gomes, de Manuela D’ávila, de João Amoedo e do radical-de-apartamento, Guilherme Boulos. A Globo vem pleiteando a exata mesma plataforma em sua propagandinha “O Brasil que eu quero”. E tudo para não falar em como isso se relaciona à questão da prisão arbitrária de Lula e da campanha desinteressada, displicente e acomodada por sua libertação.

Até a campanha por “Lula Livre” é recortada para caber nos moldes politicistas. Tudo que tem sido feito pela esquerda domesticada é procurar um lugar ao Sol no regime de tipo especial instaurado com o impedimento de Dilma Roussef. Manuela D’Ávila, em sua entrevista no “Roda Viva”, falou em dar indulto ao Lula, mas não propriamente de lutar pela libertação. Para esse pessoal, o negócio é só na caneta, no gabinete, fora de ambientes burocráticos, ficam completamente perdidos. E assim, vestindo essa camisa-de-força política, caminhamos a passos largos para a Ponte Para o Futuro, cuidadosamente arquitetada pela direita brasileira e vistoriada pela CIA, mas cordialmente oficializada pela esquerda liberal.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s