O politicismo decadente

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Um espectro ronda o Brasil — o espectro do politicismo. Todas as faces ideológicas do Capital unem-se numa Santa Aliança para disseminá-lo: o Presidente e o congresso, a mídia e os partidos políticos, os “marxistas” brasileiros e os sociais-democratas do Brasil.

O politicismo é a vulgarização da política, é a explicação da vida material no âmbito econômico, social e cultural através da política. Trata-se de uma forma mistificadora, ideológica, de explicar a complexidade dos fenômenos sociais como decorrentes única e exclusivamente da forma política desses fenômenos, como se todas as mazelas da realidade brasileira pudessem ser explicadas como uma “falha de administração”, uma “gestão incorreta” da política. A economia se transforma em mero apêndice da política, uma vez que a economia é decorrente da “ordem natural” da vida, a política é o espaço que sobra para o homem atuar, realizar seus objetivos e transformar a realidade, como se todos os demais fatores fossem, em última instância, determinados pela política.

O politicismo mais tacanho reduz à esfera eleitoral toda a margem de atuação política possível, e no limiar desses períodos, infere sua marca na organização das plataformas dos diferentes partidos políticos.
As formulações mudam de grau ou de intensidade, percorrem toda a linha entre o liberalismo de direita e o de esquerda, se cruzam com o conservadorismo ou algum pseudo progressismo, mas não fogem nunca à regra intrínseca do capital: o politicismo.

O politicismo constitui uma forma de atuação política incapaz de levar em consideração os demais imperativos sociais ou as determinantes econômicas, a totalidade da realidade social lhe escapa.

Tanto o é que o partido que, em tese, deveria levantar o programa revolucionário do proletariado dentro do processo eleitoral, sendo seu representante legítimo, se ocupa em apresentar um social-democrata engomadinho com um programa “radical” — no sentido diametralmente oposto da palavra. Mas tal crítica não consistiria num esquerdismo? Não seriam tais propostas boas para o proletariado? Reformistas, é claro, mas melhores do que o neoliberalismo ou o “fascismo” bolsonarista não é mesmo?

Rosa Luxemburgo nos ensina que os marxistas não são avessos às reformas, mas que não se limitam à elas. É claro que, as reformas, conduzidas por um partido revolucionário, são de grande importância para a classe operária. Mas é verdade também que a social-democracia, que tem as reformas como fins em si mesmos, e não como meio para superação do capitalismo, é apenas uma face do mesmo velho capitalismo.

O Estado de Bem Estar Social que se criou nos países centrais do capitalismo após a Segunda Guerra Mundial, era tão somente uma forma de escoar a produção alavancando o consumo dos trabalhadores desses países através de uma maior atuação do Estado na economia, evitando, ou melhor, adiando uma crise de superprodução (alguém aí já ouviu falar em Keynes?). Tal período é historicamente delimitado e quando tal necessidade imperativa do capital cessou, o “Estado de Bem Estar Social” ruiu, fazendo com que os trabalhadores, que antes desfrutavam de uma vida de consumo alienante, pudessem degustar de sua alienação no estado mais puro.

Os mesmos partidos políticos que antes aplicaram programas social-democratas passaram a aplicar programas neoliberais, exemplos não faltam. O reformismo mínimo, pensado dentro das determinações econômicas do capitalismo dependente é tão neoliberal quanto sua origem o é.

Poderia se argumentar que o proletariado brasileiro não é o mesmo do Século XX, que os “tempos mudaram”, que um programa revolucionário já não representa a vontade dos trabalhadores. O que representa a vontade dos trabalhadores é o programa neoliberal? O mesmo que ganhou na Argentina com Macri, que, após ser eleito, enfrentou ondas de protestos contra suas reformas neoliberais? Daí decorre o erro da análise politicista vulgar. Coloca-se o processo eleitoral como o suprassumo da vontade política, o termômetro ideal da luta de classes. Nada mais falso.

A falta da categoria da totalidade na análise da realidade faz esquecer que o proletariado, apesar de ter um celular de última geração, parcelado em suaves prestações, continua sendo escravizado pelo assalariamento, tendo todas as determinações do seu ser social regidas pelo capital e sendo, a cada novo ataque aos seus interesses, empurrado contra o precipício da miséria material e espiritual, estando ele consciente disso ou não.

O reformismo de corte social-democrata nada mais é do que uma forma de manutenção do sistema capitalista e, nas possibilidades em que este se apresenta num país periférico, é extremamente limitado pelos condicionantes externos, uma vez que nosso país cumpre a função de fornecedor de commodities na divisão internacional do trabalho.

Outra ilusão politicista é a de que o “fascismo bolsonarista” possa ser barrado num processo eleitoral. O avanço do autoritarismo no Brasil não é decorrência de uma ou outra personalidade política, mas sim de todo um arranjo do Estado brasileiro na manutenção de seu status quo, através principalmente da criminalização da luta dos trabalhadores.

A intensificação da criminalização dos movimentos sociais a partir de 2013 demonstra isso, com leis que visam punir, restringir e desmobilizar qualquer tipo de protesto, através da aprovação de medidas jurídicas contra o direito à manifestação, como por exemplo, no legislativo federal, a Lei Antiterrorismo e a Lei n° 13.281/2016, que aumenta as sanções para o bloqueio de vias públicas. Já no âmbito estadual, a partir de 2013, foram aprovadas leis estaduais a fim de “regulamentar o direito ao protesto” em São Paulo, Rio De Janeiro, Minas Gerais, entre outros, com o objetivo principal de proibir o uso de máscaras e a burocratização do requisito de Aviso Prévio, previsto no art. 5°, XVI, da Constituição Federal. Na esfera municipal não é diferente, sendo aprovada recentemente em Porto Alegre a Lei Complementar 832/2018, que trata do combate ao “vandalismo” e, entre outras coisas, endurece as regras sobre o bloqueio de vias e sobre o aviso prévio.

A repressão à luta dos trabalhadores acontece também através de estratégias de vigilância. Em 2013 a ABIN (Agência Brasileira de Inteligência) montou um sistema de monitoramento da internet para se antecipar aos protestos, o Exército utilizou o software “Guardião” para monitorar a internet e enviar informações para à Polícia Federal e Secretarias de Segurança Pública, o uso sistemático de câmeras por parte dos policiais em protestos para filmar e fotografar manifestantes, além de verdadeiras “rondas virtuais” nas redes sociais de manifestantes, que podem ser processados com base nessas informações. A recente ordem de prisão dos 23 manifestantes dos protestos no Rio De Janeiro, o assassinato da vereadora Marielle Franco e as inúmeras chacinas nas áreas rurais dominadas pelo latifúndio, são as provas cabais do Estado policial que se configura no Brasil.

O “fascismo” no Brasil não emana de um candidato, e sim do próprio Estado, esse alienista machadiano, para desarticular e reprimir os trabalhadores, estudantes e camponeses.

Atualmente no Brasil o politicismo é reforçado pelas instituições atreladas ao Estado, pelos partidos, pelas diferentes esferas do Parlamento, e mais notoriamente, pela mídia. Essa última, mais notadamente na chamada “Rede Globo”, se esforça dia após dia na disseminação do politicismo; enquanto noticia que os problemas do país são a corrupção e a má administração, promove a “interação” com seus telespectadores — tão conscientes das causas dos problemas sociais quanto possível pela fertilização midiática em suas mentes — que respondem à pergunta sobre “qual Brasil você quer para o futuro?” sempre na mesma perspectiva: um país sem corrupção e bem administrado.
No lamaçal parlamentar brasileiro não é diferente. A valoração superestimada da política é a razão de ser dos parlamentares, que disputam entre si e seus partidos qual será o melhor gerente do capital.

O período eleitoral aguça essa tendência, nada mais pode ser feito além de votar: apenas o “voto consciente” pode resolver todos os problemas do país. Não existem saídas fora da institucionalidade, não existe política além do Parlamento e da Urna Eletrônica. A “esquerda” e alguns pretensos marxistas, embriagados por essa ideologia, pensam exatamente dessa forma. Pretendem barrar o golpe de 2016 através das eleições, como se a burguesia também não quisesse estas eleições para restaurar a legitimidade “democrática”. Como uma eleição dentro de um golpe de Estado pode ser legítima? Como uma eleição onde o candidato líder nas pesquisas está preso pode ser legítima?

A “festa da democracia” é uma farsa, qualquer candidato eleito é o candidato do encerramento democrático e gradual do Golpe de 2016. Essa é a estratégia da burguesia. É por isso que os generais “democratas” do Exército Brasileiro estão lançando suas aspirações políticas no ar. É por esse motivo que eles estão ocupando ministérios no atual Governo Federal. Não vai acontecer um novo AI-5, não vamos ver tanques de guerra em Brasília; isso já aconteceu. Já estamos dentro do golpe, ele não “muda de fase” a cada novo acontecimento, ele apenas prossegue sua trajetória discreta rumo a uma nova transição “lenta, gradual e segura” para a “democracia”.

A esquerda precisa reavaliar sua estratégia de luta, precisa perceber que a luta institucional não é o ápice do embate político e mais, que o poder político é diferente do cargo político. Só dessa maneira podemos iniciar o rompimento com o politicismo tosco.

Mas é preciso cuidado: o rompimento com o politicismo não é necessariamente o rompimento com a política. A política é o meio pelo qual a revolução social se exprime, a luta de classes é uma luta política; mas o poder político, sendo expressão oficial do antagonismo na sociedade civil, só pode ser superado pela abolição de todas as classes.
Romper com o politicismo é romper com as ilusões quanto à política, é compreender que através da política podemos iniciar a luta pela superação dos problemas sociais, e não superá-los. É compreender que o poder político, não é o cargo eleitoral ou a cadeira presidencial, é a dominação hegemônica do aparelho Estatal, que no capitalismo é dominado pela burguesia. A miséria do politicismo é empecilho determinante para a superação revolucionária da ordem atual através de uma estratégia e de uma tática verdadeiramente revolucionárias.

 



 

 

 

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