Análise sobre a situação na Nicarágua (por Victor Cavalcanti)

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Ontem vi umas pessoas aqui nesta rede social esbravejando contra o “ditador sanguinário” da Nicarágua, que matou centenas de pessoas que participavam de protestos “pacíficos” nos últimos meses, como tem noticiado amplamente a grande mídia daqui.

Assim, na boa, inicialmente esses protestos até tinham razão de ser. O Daniel Ortega, que não é um ditador, mas um presidente eleito, havia baixado em abril um decreto que reformava a previdência do país. Não era nenhuma reforma tão dramática, como a proposta no Brasil, pois não aumentava tempo mínimo de contribuição nem nada. A reforma consistia no aumento de 19% para 22% da contribuição PATRONAL e de 6,25% para 7% da contribuição máxima dos trabalhadores (bem abaixo do Brasil, por exemplo), além de fixar contribuições de 5% para os aposentados. Aqui como lá, o orçamento da seguridade social engloba não só previdência, mas saúde, e, dizia o governo, a ideia era abrir espaço para ampliar o financiamento da saúde. Se era verdade ou não, eu já não sei, pois o país enfrenta problemas com o FMI, que exige ajustes ainda mais duros, aos quais o governo parece opor resistência.

Pois bem, uma parte do povo ficou meio puta, com razão, e foi protestar. Mas vejam só vocês, diferente de alguns governos intransigentes, em maio o governo cedeu e voltou atrás na reforma. Mas os protestos continuaram…

A oposição resolveu “aditivar” os protestos iniciais contra a reforma da previdência e passou a pedir a saída de um governo que eles não conseguem vencer nas urnas…

A oposição “pacífica” passou a se valer ostensivamente de grupos paramilitares, com armamento real, além de organizar manifestações muito parecidas com as ocorridas na Venezuela em 2014 e 2017, usando contra a polícia, por exemplo, armas de fogo artesanais (feitas de cano), e passando a práticas deliberadas de incêndio de repartições públicas.

Os grupos paramilitares reais chegaram a sequestrar, torturar, matar e incinerar um chefe de polícia. Dos mais de 300 mortos divulgados na imprensa internacional, é revoltante o fato de que nunca mencionam os sandinistas (apoiadores do presidente) e os policiais mortos. Tudo se passa como se as forças do “ditador” Ortega estivessem massacrando manifestantes inocentes e estudantes armados apenas com boas intenções, como os estudantes da Universidade Politécnica, apoiados curiosamente pelo homem mais rico da Nicarágua, Piero Coen, e onde se achou armamento de fogo real.

A verdade, meus amigos, é que o Daniel Ortega está apenas se defendendo de mais um golpe de Estado na nossa região. Aos que o criticam, é melhor se decidirem se apoiam logo de uma vez mais um golpe de estado. Fico inclusive contrariado com o posicionamento do PSOL a respeito.

De todo caso, desde 2016, desde as negociações de Havana em torno do acordo de paz na Colômbia, incontáveis líderes sociais têm sido assassinados neste país. A FARC (Força Alternativa Revolucionária do Comum), que abandonou as armas e agora é um partido legalizado, teve que retirar a sua candidatura do pleito presidencial do último mês devido à onda de assassinatos políticos.

Nunca li nenhuma nota do PSOL a respeito (posso estar enganado sobre não existir tal nota). Também nunca vi uma certa esquerdinha liberal esbravejar contra estas verdadeiras atrocidades.

A moral da história é a seguinte: com uma certa esquerda liberal que a gente tem, ninguém precisa de direita e uma parte da esquerda socialista se impressiona muito com os noticiários da grande mídia.

Por Victor Cavalcanti.

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