Vôlei de praia no coração político da China

China

Quando Pequim ganhou o direito de sediar as olimpíadas de 2008, os moradores da cidade passaram a comentar a notícia divulgada pela imprensa de que os jogos de vôlei de praia seriam realizados na Praça da Paz Celestial. Ouvi todos os tipos de opinião. Mas a maioria demonstrava certa perplexidade com a ideia de que coração político da China se tornaria o palco de uma disputa de vôlei de praia com mulheres de biquíni.

“A Praça da Paz Celestial é um lugar que nós chineses associamos com as profundas transformações históricas da China, tanto boas quanto ruins,” me disse uma amiga. “Por isto, realizar uma competição esportiva na praça não faz sentido algum. Seria como realizar um concerto de rock numa igreja.”

Para alívio dessa minha amiga, o plano de realizar as partidas de vôlei acabou sendo abandonado logo depois, sem que os organizadores chineses dessem muitas explicações sobre os motivos de sua decisão. Mas a maneira como essa ideia acabou incomodando muitos chineses me levou a refletir sobre o simbolismo da praça e as transformações pelas quais ela tem passado durante as duas últimas décadas.

Desde criança, os chineses aprendem que a Praça da Paz Celestial é o centro do país. E, como frisou a minha amiga, a praça foi palco de eventos e movimentos históricos que mudaram a face da China moderna.

Em 4 de maio de 1919, estudantes da Universidade de Pequim se reuniram na praça para protestar contra o imperialismo europeu, dando origem ao movimento que se espalhariam pelo país e seria responsável, segundo a historiografia oficial chinesa, em criar os alicerces para a fundação do Partido Comunista chinês em 1921. Trinta anos mais tarde, os chineses se reuniram na praça para ouvir Mao Zedong fundar a República Popular da China.

Na década que se seguiu, a praça foi expandida para o seu tamanho atual, um processo marcado por enorme simbolismo político, pois a reforma acarretou na destruição de vários prédios históricos, muitos dos quais abrigava legações de países estrangeiros durante o início dos anos 1900. Para Mao Zedong, aumentar as dimensões da praça significava não apenas criar um símbolo poderoso do novo Estado-nacional chinês, como também varrer os resquícios de um passado humilhante marcado pelo imperialismo europeu. Essa reforma fora concluída em 1959, a tempo para as comemorações do décimo aniversário da revolução.

Os chineses hoje, principalmente àqueles com mais de 30 anos, sempre associaram à praça a um local de manifestações políticas  _tanto coreografadas quanto espontâneas_ e de convívio social. Quando o premiê Zhou En-lai faleceu em 1976, milhares de chineses convergiram na praça de forma espontânea para homenageá-lo. Quando o governo chinês reabriu as universidades após o fim da Revolução Cultural em fins dos anos 70, eram comum observar adolescentes sentados na praça à noite estudando para os exames. E, em 1989, a praça atingiu fama internacional com a repressão dos protestos estudantis pelo governo chinês.
É interessante observar que, a partir dos anos 90, o local aos poucos passou por uma profunda transformação: ela deixou de ser uma praça pública. Até 1989, a praça havia sido um termômetro dos ânimos políticos e sociais da população. Embora fosse um símbolo do Estado chinês, os habitantes da cidade também a consideravam um local de convívio social.

A mudança começou a ocorreu a partir de maio de 1991, quando a Praça da Paz Celestial passou a se tornar o palco de uma cerimônia que vem atraindo um número cada vez maior de turistas chineses e estrangeiros: o hasteamento da bandeira.

Esse evento coreográfico ensaiado nos mínimos detalhes. Sob o olhar atento do retrato de Mao Zedong no Portão da Paz Celestial, uma procissão de soldados carregando a bandeira da China atravessa a avenida da Eterna Paz até chegar ao mastro na praça. Ao som do hino nacional, o hasteamento da bandeira leva exatos 2min7s, cronometrado com precisão suíça para coincidir com o nascer do sol.

Os soldados que participam da cerimônia passam por um treinamento para aprenderem como lidar com os turistas. Eles até aprendem algumas frases em inglês como “please don’t spit on the ground” (Favor não cuspir no chão). Entretanto acho que esses soldados não devem ter muitas oportunidades de praticar o seu inglês com turistas estrangeiros. Já assisti ao hasteamento algumas vezes e geralmente eu sou o único estrangeiro num mar de chineses. A única exceção foi em março de 2005, quando encontrei um empresário norte-americano que estava de passagem pela cidade. Ele disse ter percebido uma certa “religiosidade” entre os chineses presentes na cerimônia que se assemelhava ao sentimento que católicos sentem ao ir à Igreja.

Para um guia turístico chinês com quem conversei, as crescentes levas de turistas chineses interessados em assistir ao hasteamento da bandeira lembram as peregrinações muçulmanas a Mecca. Ele também assinalou que assistir à cerimônia é um símbolo de prestígio entre os chineses, principalmente entre aqueles oriundos de Províncias mais distantes da capital. Mas ele também enxerga essa cerimônia como parte dos esforços do governo chinês em mudar o ambiente da praça.

“Essa cerimônia tem como objetivo cultivar a espírito nacionalista da população,” ele me disse. “Até os anos 90, os habitantes da cidade gostavam de ir à praça para passear, passar a tarde com a família e os amigos, mas hoje você não vê mais isso. A praça hoje é apenas uma atração turística para fortalecer o sentimento nacionalista da população.”

Essa mudança ficou evidente no decorrer da década passada. A presença de policiais e de câmeras de segurança aumentou de forma significativa. A partir dos Jogos Olímpicos de 2008, guardas passaram a revistar as bolsas de turistas nos locais de acesso à praça. “O local hoje parece mais uma fortaleza bem guardada pelo governo do que uma praça onde você vai encontrar os seus amigos,” lamentou o guia turístico. “Não se trata mais de uma praça para o povo, mas sim de um instrumento do Estado para o controle de sua população.”

Matéria original.

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