O mito dos protestos pró-democracia na China em 1989

Praça

A passagem de mais um aniversário do “Massacre da Praça da Paz Celestial” nesta semana seguiu o ritual de sempre: vigílias em Hong Kong e Taiwan, discursos de dissidentes chineses no exterior e artigos na mídia internacional sobre os esforços do Partido Comunista chinês (PC) em garantir que a data passasse despercebida no país.

Mas uma questão fundamental esteve ausente do debate sobre os trágicos acontecimentos de 3 e 4 de junho de 1989, talvez porque geraria um certo desconforto entre os críticos do regime chinês: é correto rotular os protestos de 1989 de “pró-democracia”?

Não é difícil entender por que a mídia estrangeira enxerga as manifestações de 1989 como “pró-democracia.” Durante semanas, estudantes de todos os cantos do país covergiram na praça da Paz Celestial, o coração político da China, para pedir mudanças e debater o futuro. Aos poucos, os protestos ganharam a adesão de outros segmentos da sociedade. Ouvia-se a palavra “democracia” (minzhu) nos discursos. Alunos de uma academia de artes inclusive ergueram na praça a “Deusa da Democracia,” uma estátua que se tornou um dos símbolos do movimento.

Os estudantes atraíram a simpatia tanto dos habitantes da cidade quanto de pessoas ao redor do mundo que assistiam às imagens na televisão. O regime chinês parecia mostrar os mesmos sinais de exaustão que aqueles no Leste Europeu e União Soviética. Mike Chinoy, correspondente da rede norte-americana CNN em Pequim, chegou a comparar os protestos com o movimento democrático-popular que havia derrubado o presidente filipino Ferdinand Marcos em 1986, após mais de 20 anos no poder.

A mídia ocidental infelizmente construiu uma narrativa simplista dos acontecimentos de 1989, retratando um movimento pacífico, pró-democracia, que acabou sendo esmagado de forma violenta por uma ditadura comunista. Essa versão acabou moldando uma percepção dos protestos como uma luta do bem contra o mal, empobrecendo o debate acerca do significado dos acontecimentos naquela época e nos dias atuais.

“Em sua cobertura, os jornalistas ocidentais pareciam copiar os métodos dos historiadores marxistas chineses. Eles reduziram o acontecimento a uma guerra entre opressores e oprimidos,” me disse um professor de história da Universidade de Pequim há alguns anos. “A narrativa do PC sobre as manifestações é quase idêntica à da imprensa ocidental, a única diferença é que os soldados são os heróis, e os estudantes, os vilões.”

Apesar do empenho do PC em apagar da memória coletiva o “incidente de 4 de junho” (como o movimento é conhecido na China), os protestos ainda são discutidos em universidades. Quando realizava pós-graduação na Universidade de Pequim no final dos anos 90, tive a oportunidade de presenciar vários debates sobre o assunto em sala de aula e conversar com pessoas que haviam participado ativamente do movimento. Nem todos compartilhavam a mesma opinião, mas nenhum deles caracterizava o movimento como “pró-democracia.”

Embora os manifestantes frequentemente utilizassem o termo “democracia” em seus discursos, cada um parecia entender o conceito de forma distinta. Um médico que esteve na praça durante várias semanas me disse: “Para alguns, significava maior liberdade de imprensa. Para outros, acabar com a prática de universidades em aceitar filhos de burocratas poderosos do PC e melhorar as condições nos dormitórios estudantis. E para um amigo meu que estudava literatura, era poder tomar uma ducha quente todos os dias”.

Até mesmo Chai Ling (uma das líderes mais radicais do movimento) afirmou, em uma entrevista para um jornalista norte-americano, que achava que os estudantes “não possuíam nenhuma noção de democracia”.

Então, afinal, o que queriam os estudantes? “Estávamos lá porque sentíamos que alguns dos nossos governantes haviam se afastado dos ideais socialistas, que eles não estavam mais preocupados com o povo, que queriam apenas enriquecer” me disse uma tradutora, que na época estudava inglês. “Nós queríamos dialogar (duihua) com o governo para reduzir as injustiças sociais e os abusos de poder. Sob essa ótica, os protestos de 1989 são bastante semelhantes aos de hoje.” Wang Dan, um dos líderes do movimento, assinalou que “nós não queremos derrubar o Partido Comunista ou o socialismo”.

Os manifestantes também almejavam uma distribuição mais justa dos frutos gerados pela política de abertura econômica. Eles estavam preocupados com os efeitos colaterais das reformas: aumento da inflação, corrupção e perda de benefícios sociais antes assegurados pelo Estado. Entrea as sete reivindicações iniciais dos estudantes em 17 de abril estava o aumento da remuneração dos intelectuais e a publicação da renda dos governantes e seus familiares. Wu’er Kaixi, outro líder do movimento, enfatizou que: “Nós não temos o idealismo fanático que nossos irmãos e irmãs mais velhos tinham. Então o que queremos? Tênis Nike e muito tempo livre para levarmos as nossas namoradas para bares.”

Alguns com quem conversei descreveram as manifestações como um local de fuga da rotina cotidiana. Uma professora universitária, que na época realizava sua pós-graduação em russo, resolveu ir à praça na esperança de conhecer o cantor taiwanês Hou Dejian, que havia se juntado aos manifestantes. “Minhas amigas e eu não estávamos muito interessadas em política. Estávamos contagiadas pela euforia do movimento, pela possibilidade de podermos deixar de lado as pressões que faziam parte do nosso dia-a-dia,” me contou, frisando que as pessoas na praça não falavam em derrubar o regime, mas em corrigir certas injustiças. “Mas, quando vi os soldados atirando nas pessoas, foi a partir desse momento que passei a odiar o PC.”

Ao mesmo tempo em que essa professora destilava sua raiva contra o governo pela repressão violenta, ela também não poupava críticas aos líderes estudantis. “Estava muito claro para nós que o movimento não iria alcançar absolutamente nada. Os líderes estudantis estavam sempre brigando entre si. Como que eles iriam dialogar com o governo se ninguém tinha uma estratégia e reivindicações bem definidas?”

À medida em que o movimento crescia em meados de maio, as cisões dentro do movimento se aprofundavam e emergiam novas facções que lutavam pelo controle. Durante uma entrevista alguns anos mais tarde, Wu’er Kaixi lamentou que os alunos perderam oportunidades em negociar com o governo em virtude dessa radicalização. Esses desentendimentos entre as lideranças estudantis contribuíram para o trágico desfecho do movimento na noite e madrugada de 3-4 de junho e sedimentou a narrativa da mídia ocidental acerca dos acontecimentos.

Nas mais de duas décadas que se seguiram, o PC passou a utilizar essa narrativa simplista para nutrir um sentimento antiocidental entre a sua população. Em um artigo publicado em 2009, o jornalista britânico James Kynge _que cobriu os protestos para a agência de notícias Reuters_ argumentou que a insistência do Ocidente em retratar o movimento como “pró-democracia” serviu apenas para reforçar o discurso do PC de que os norte-americanos e europeus continuam interferindo nos assuntos internos do país, se esforçando para impor seus valores aos chineses e para criar obstáculos à ascensão da China como potência.

As feridas abertas pelo desfecho do movimento apenas irão cicatrizar quando todas as partes envolvidas deixarem de lado as suas interpretações simplistas, eivadas de estereótipos. Mas isso provavelmente não acontecerá num futuro próximo.

Matéria original.

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