Mao Tsé-Tung assusta o governo chinês

Mao

Uma novidade marcou a mais recente onda de protestos antijaponeses na semana passada: manifestantes desfilando com retratos de Mao Zedong. Isso causou calafrios na cúpula do Partido Comunista chinês (PC).

Pode parecer estranho que a figura do líder revolucionário, um dos fundadores do PC e maior símbolo do atual regime, assuste o governo. O problema é que a figura de Mao indicava que os protestos não tinham como única finalidade expressar o sentimento nacionalista. Ao evocarem Mao, também revelavam o seu descontentamento com os atuais rumos do país.

Desde o final da década de 90, os protestos nacionalistas sempre geraram um enorme desconforto entre as autoridades chinesas. Embora alimente o patriotismo (aiguo zhuyi) como forma de legitimar o seu poder, o regime nunca estimulou tais protestos por temer que a ira dos manifestantes pudesse facilmente se voltar contra o PC.

A cada onda nacionalista, as autoridades se esforçam para evitar que os protestos acabem saindo de seu controle. Há dois anos, durante os protestos antijaponeses em Wuhan, observei policiais implorando aos manifestantes _a maioria universitários_ que voltassem às salas de aula. Isso serviu apenas para exacerbar a ira dos manifestantes, que passaram a acusar os policiais de não possuírem sentimento patriótico.

Ao acompanhar vários desses protestos durante a última década, raramente me deparei com manifestantes evocando o espírito de Mao. Mas os tempos mudaram. A proliferação de seu retrato nos protestos da semana passada reflete uma maior ousadia por parte dos manifestantes em tecer críticas aos crescentes problemas que afligem o país, como o abismo entre os ricos e os pobres e a corrupção.

Para os manifestantes, a maioria nascida após a era maoísta (1949-1976), o líder revolucionário encarnava um regime que combatia o imperialismo com maior dureza que o atual governo e cujas diretrizes socioeconômicas eram mais igualitárias.

Nos protestos que se espalharam por dezenas de cidades no fim de semana passado, também era possível avistar cartazes com mensagens de apoio a Bo Xilai, o ex-secretário do Partido Comunista de Chongqing que resgatara símbolos da era maoísta até ser destituído no início deste ano, em meio a um escândalo de corrupção e assassinato.

Nos anos anteriores, as críticas dos manifestantes contra o regime em geral gravitavam em torno da maneira com que Pequim conduzia a sua política externa. A maioria acreditava que os líderes chineses não demonstravam firmeza ao lidar com países como os EUA e o Japão. “Devemos ser mais agressivos e mostrar a eles (japoneses e norte-americanos) que somos uma potência”, me disse um universitário durante os protestos de 2010. “Só assim seremos respeitados.”

Durante os protestos antijaponeses da semana passada, todavia, a falta de uma posição mais dura do regime na arena internacional era apenas uma dentre várias críticas. Segundo relatos na imprensa norte-americana e europeia, a longa lista de reclamações dos manifestantes pelo país incluía os privilégios da elite política, o aumento da corrupção e a falta de democracia.

Desde o final dos anos 90, os chineses passaram a enxergar os protestos nacionalistas como uma forma de ventilar as suas críticas ao regime. Mas o descontentamento com o governo era geralmente expressado com certa timidez e abafada pelo fervor nacionalista. Ao evocarem o espírito de Mao durante os protestos da semana passada, os nacionalistas chineses indicaram que estão dispostos a demonstrar o seu descontentamento de forma mais aberta.

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