Considerações sobre a seleção croata e o nazifascismo (por André Ortega)

Vida

“Slava ukraina” hoje não é outra coisa que não um lema bandeirista que agita os apoiadores da Junta de Kiev e os neonazistas que se valem da histeria anti-russa para cometer seus crimes. Slava ukraina é o lema que encobre Poroshenko e Turchynov, que alimenta o pravy setor, é o mote da guerra contra o Donbass, essa sim que se vale da criminalização de um povo inteiro. Não é por acaso que ele usou o lema numa vitória contra Rússia dedicada a Ucrânia. E ídolo do Dynamo, que tem a torcida mais fascista em Kiev.

Não estou marcando “lado mal e lado bom”, existe o lado que deu um golpe de estado e soltou a cadela do fascismo, e esse lado é o do nacionalismo ucraniano e do atual Estado ucraniano. Não é “minha palavra contra a dele”, ele podia ter mandado um abraço para os ucranianos, dedicado à sua equipe, até mesmo ter dedicado a Ucrânia e sair com esse papo, mas ele usou o “Slava Ukraina”.

A histeria anti-russa é um instrumento de um golpe de estado apoiado pelos Estados Unidos e que culminou em bandos fascistas atuando com liberdade na Ucrânia, agredindo veteranos da Segunda Guerra e cometendo barbaridades como o Massacre de Odessa. Agora você tem fenômenos como um regimento inteiro (mais de 1000 pessoas) neonazista, como o Batalhão Azov. Ultranacionalistas notáveis assumiram pastas políticas como educação e cargos de defesa e segurança nacional. O Pravy Sektor ganhou 22 batalhões com a DUK. Criminosos como o Turchinov conduzem a guerra.

A política recebe toda uma onda de neofascistas, banderistas (Stepan Bandera). enfim, dá pra fazer uma lista. Essa histeria anti-russa não é só um instrumento contra o país Federação Russa, mas contra a considerável população que se identifica como russa ou russófona na Ucrânia, para não falar daqueles que tem simpatias políticas distintas do Euromaidan (seja essa simpatia pró-russa ou comunista, já que os comunistas foram banidos).

Dizem “é uma saudação comum na Ucrânia”. Eu não escutei ninguém usar essa saudação no Donbass que é vítima da guerra em nome da Ucrânia. Por razões óbvias – vejo o Vida soltando essa depois o filho dele correndo no campo, lembro das crianças que vi em Pervomaisk que está obliterada por bombardeios. Bombardeios que começaram numa campanha de terror indiscriminado para evitar que no Leste ocorresse um referendo. Bombardearam inclusive antes de ter milícia federalista ali.

Pior, o presidente Poroshenko em uma de suas declarações públicas (dessas que terminam como “Slava Ukraina”) falou que “enquanto nossas crianças vão a escolas as deles vão ficar em porões se escondendo de bombas”. E é isso mesmo que acontece, as crianças só iam raramente a escola para ficar um breve momento, tempo suficiente para receber uma lição de casa. Não quero ser inquisitorial com o Vida, se ele é um fanático ou só está repetindo por outras razões, “para causar”, mas se ele fez vídeo público falando eu vou entender muito bem porque é ofensivo e vou entrar em discussões como essa para expor essa situação.

Tenho pena é da Sérvia que foi vítima de uma política da OTAN enquanto limpavam a barra da guarda de Tudjman. Você trata o que estão falando dos croatas como “injustiça”, mas o ocidente passou uma década encobrindo o nacionalismo croata e suas responsabilidades na guerra iugoslava enquanto pintavam um demônio sérvio. Tudjman chegou ao poder com apoio alemão e de outros ocidentais, além do Vaticano ter se destacado ao adiantar armas para os croatas. Tudjman tem uma obra que reabilita a Ustasha (grupo mais brutal da Segunda Guerra), teve o Holocausto e ainda por cima culpa os judeus. As declarações dele em 90 mantinham esse caráter e até institutos judeus denunciaram a mudança de nome de rua para criminosos ustashas, o apagamento da memória histórica tirando memoriais e revisão de livros de história.

O pior que essa reabilitação dos ustashas se traduziu militarmente e custou sangue sérvio. Infelizmente o discurso ocidental dos 90 ainda é forte e só se lembram de “criminosos sérvios” ao invés de considerar o que aterrorizava os servios em Krajina e aqueles da república serpska.

Foi Tudjman que disparou a crise iugoslava e inclusive traiu o seu equivalente bósnio (o Alija, que era um veterano da SS e fundamentalista). O HDZ, o partido do Tudjman que agora voltou, estava e está cheio de radicais nesse aspecto. Isso mais a ideia também popular nos ustasha de que não são eslavos e sim germânicos. Muita gente não conhece isso e está acusando o fascismo, mas quero dizer que a outra posição diferente dessa postagem não é absurda… Esse episódio do futebol são ponta de iceberg. Sobre a música, eu concordo que não é tão simples, mas ela é só mais um exemplo de como a guerra e sua cultura favoreceu a reabilitação dos ustashas, de como isso se misturou na consciência nacional – a música se torna aceitável mesmo começando com za dom sprenmi.

Também temo uma contextualização anti-sérvia. “Sérvios radicais queriam fundar uma nação étnica pura na Croácia”, os radicais croatas que não são mencionados queriam o quê? Parece que no contexto de “auto-defesa” a serbofobia misturada com política extremista é aceitável.

Não duvido da existência de gangues sérvias que mataram civis. No entanto, não consigo ler tal coisa com “no território croatas os sérvios queriam”… “território croata” que foi definido depois de uma guerra, no sudoeste da Croácia habitava uma importante minoria sérvia, Krajina era uma província de população sérvia. Eles estavam em mais de 500 mil pessoas, no senso de 2011 são 186 mil – existe uma massa de refugiados e quem ficou ainda enfrenta discriminação institucional. Quem historicamente quis “limpar” a Croácia foi o nacionalismo croata, vide a política dos três terços de Mile Budak: um terço dos sérvios a ser expulso, um terço convertido ao catolicismo e um terço eliminado.

“Ah mas croatas que lá habitavam foram expulsos”, como foram os sérvios no fim das contas – como você disse, “é complicado”, mas nesse texto que era para ser um elucidação eu só leio Milosevic, não leio Franjo Tudjman ou Alija Izetbegović.

A condenação do general Ante Gotovina e de Markac no tribunal de Haia foi uma condenação contra toda direção política da Croácia na época e da própria operação que “liberou” a Croácia na base do terror contra a população sérvia (e foi recebido pelos croatas com ultraje).

“Ah mas os sérvios cometeram x massacres, tomaram tal vila e mataram x pessoas”, durante insurreição sérvia na Croácia (que deveria ser diferenciada da guerra na Bósnia e do Kosovo), porém aí eu procuro “situar” como recomenda o texto: o fato dos sérvios terem uma memória histórica do regime VERDADEIRAMENTE genocida dos ustasha não estimulou o seu medo? Teve um regime instalado pelos nazistas que matou 400 mil sérvios em massacres, outros 100 mil no campo de concentração de Janesovac, e esse regime agora passa a ser reabilitado por nacionalistas croatas que são contra sua língua, e com tudo acontecendo você se sente sem país? Quando Tudjman chegou ao poder e a Croácia virou independente, Budak chegou a ser nome de escola de criança e até de rua (no caso a rua acabou mudada).

Eu estou ainda mais próximo (acredito) de pessoas (do Brasil e da Europa) que assumem uma posição mais radical em relação a própria existência da Croácia, mas não vejo resolução para a questão nacional ali – isto é, os croatas deixarem de se enxergar como croatas e as narrativas que isso carrega (se achar alemão e não eslavo, por exemplo – se algo comum no seio do povo, o que fazer?). Só acho que ainda há bastante espaço para a reabilitação dos ustashas que se trafica nessa consciência nacional. Muitos países se formaram com sangue, eu não tenho dúvidas disso, mas o que nos toca em relação a Iugoslávia foi que nos vimos a OTAN fazer um sangrento jogo geopolítico e ainda fazer uma operação ideológico-midiático sem precedentes na hora de construir narrativa.

Quanto ao futebol, me causa um pouco de ansiedade a perspectiva de uma equipe “anti-russa” (e anti-sérvia por extensão) vencer na Rússia. “Ansiedade” porque não dá para saber bem. O Vida já demonstrou que não é muito esportivo em relação a isso. Mas até aí, é bem capaz de que uma vitória da França possa se retratada como uma vitória de um “ocidente democrático” frente a um “oriente autoritário” nas terras desse oriente.

Por André Ortega.

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