Leonel Brizola, um político radical e apaixonado

Brizola

“Escrevo horas antes da votação, pela Câmara dos Deputados, do vergonhoso salário mínimo de R$ 260 (…) Esta decisão sobre o salário mínimo é uma espécie de epitáfio sobre as esperanças que o nosso povo trabalhador depositou em Lula.” A crítica, escrita em maio por Leonel de Moura Brizola, quando a Câmara começava a debater o salário mínimo de R$ 260, é um derradeiro exemplo do que ele foi na vida política brasileira.

Crítico, combativo, radical, exatamente como era já nos idos de 1945 – ele tinha então 23 anos – quando entrou no recém-fundado Partido Trabalhista Brasileiro e mergulhou de cabeça na causa do trabalhismo pregada pelo ditador Getúlio Vargas. E antes não tinha sido diferente.

Nascido de família humilde em Cruzinha, pequeno povoado perto da cidade gaúcha de Passo Fundo, a 22 de janeiro de 1922, o pequeno Leonel bem cedo trabalhou como engraxate e ascensorista e batalhou muito, depois, para completar o curso de engenharia em 1949. “Era um universitário atípico”, diria dele mais tarde o antropólogo e amigo Darcy Ribeiro, “porque não aderia aos ideais das elites e até se orgulhava de sua origem popular”. Mas foi um misto de radicalismo e valentia que fez dele uma figura nacional.

Embalado nas campanhas do PTB gaúcho, foi deputado federal em 1954. No ano seguinte, prefeito de Porto Alegre – e em 1958, aos 36 anos, elegeu-se governador do Rio Grande do Sul. Do Palácio Piratini para o palco da política nacional foi um simples passo. O País vivia, a meio caminho do governo de Juscelino Kubitschek, um intenso debate entre nacionalismo, mais à esquerda, e um modelo econômico liberal, pró-americano, à direita.

O engenheiro, como começavam a chamá-lo, simplesmente estatizou empresas multinacionais e começou um processo de reforma agrária. A renúncia de Jânio Quadros, em 1961, o levou a criar e comandar uma “cadeia da legalidade” para garantir a posse do vice-presidente João Goulart, que os militares da época não aprovavam. Microfone na mão, voz dramática, ele falava em patriotismo e desafiava os militares. Pregava em comícios e auditórios em defesa das chamadas reformas de base.

Em 1962, foi o deputado mais votado do País, pelo Rio de Janeiro. Ele, do PTB, de um lado, e Carlos Lacerda, do outro, pela UDN, travaram uma batalha histórica em torno de um modelo para o Brasil. Lacerda e os militares venceram, em 1964, e Brizola foi cassado. Exilado no Uruguai, foi de lá expulso em 1977 – indo viver depois nos Estados Unidos e depois em Portugal.

Sua volta ao País, com os anistiados de 1979, foi marcado por um trauma: a sigla PTB foi “tomada” dele, na reorganização partidária de então, por Ivete Vargas, e lhe restou fundar um novo partido, o Partido Democrático Trabalhista, PDT. Pelo PDT ele governou por duas vezes o Rio, em 1982 e em 1990. Tentou duas vezes a Presidência, perdendo para Fernando Collor em 1989 e para Fernando Henrique Cardoso em 1994. Amargou uma terceira derrota em 1998, como vice de Luiz Inácio Lula da Silva.

Restavam-lhe o prestígio internacional, como militante da Internacional Socialista – da qual ainda era vice-presidente – e a amizade com figuras como Mário Soares, Felipe Gonzalez e outros líderes. Nos últimos dez anos, seu PDT perdeu espaço na esquerda nacional, e ele passou a criticar Lula e o PT. “Acho o atual governo incapacitado para governar. O trabalhismo é o caminho de salvação para o nosso país. Esses neoliberais já fracassaram.”

Matéria original.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s