Filas em postos de gasolina do país se tornaram frequentes nos anos 70

Fila

As filas que se formam hoje nos postos de gasolina em meio à greve dos caminhoneiros não são uma novidade para quem viveu outras crises de desabastecimento de combustível no país. Na sua edição de 20 de janeiro de 1977, por exemplo, O GLOBO registrou extensas filas nos postos do Rio durante a véspera do feriado de São Sebastião, provocando engarrafamentos até tarde de noite. A confusão foi motivo de reportagens por vários dias. Na edição de 23 de janeiro, o gerente de banco Osvaldo Isbati, de Lages do Muriaé, em Minas Gerais, disse que viajou a passeio para o Rio e que não poderia abrir a agência no dia seguinte porque não tinha combustível para abastecer seu Fusca e voltar para casa.

Desde os anos 70, quando houve os dois choques do petróleo, filas em postos de combustíveis deixaram de ser raridade. Em 1973, a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) elevou em cerca de 400% o preço do barril, e, embora 68% do óleo consumido no Brasil fosse importado, o governo militar não tomou medidas para restringir o consumo ou aumentar a produção. Inicialmente, os efeitos da crise não foram sentidos no país, que a partir dos anos 50 fez a opção pelo modal rodoviário. Com a situação se agravando, o governo de Ernesto Geisel tomou uma medida drástica para reduzir a demanda: em 19 de janeiro de 1977, o presidente assinou um decreto proibindo o funcionamento dos postos de combustíveis das 23h às 6h, de segunda a sexta-feira, e o fechamento total aos sábados, domingos e feriados nacionais.

Em 1979, após o segundo choque do petróleo, que provocou queda da produção iraniana em consequência da Revolução Islâmica liderada pelo aiatolá Khomeini, filas voltaram a tumultuar a cidade, provocando “um clima próximo ao da histeria coletiva”, e causando “um dos maiores congestionamentos dos últimos tempos na cidade, principalmente na Zona Sul”, informava o jornal em 4 de agosto. Os preços do petróleo permaneceram altos até 1986, quando voltaram a cair.

Desde a primeira crise do petróleo, ganhara força a criação de um combustível 100% brasileiro, imune às oscilações do mercado internacional. Com subsídios do governo, o Programa Nacional de Álcool (Proálcool), instituído em 14 de novembro de 1975, conseguiu desenvolver o primeiro biocombustível comercial do mundo, o álcool hidratado à base de cana-de-açúcar, atualmente chamado de etanol. Mas só em maio de 1979 os primeiros 15 postos com o novo combustível começaram a funcionar, junto com os primeiros carros movidos a álcool.

Mas o álcool não foi suficiente para resolver a demanda de derivados do petróleo: em 16 de agosto de 1983, o jornal noticiava nova crise, com falta de combustíveis em todo o país. Em Jardinópolis (SP), o produtor de leite Adib Rassi queixava-se de ter parado “suas mil e quinhentas máquinas e tratores por falta de óleo diesel”, após ficar seis dias na fila. Em Mato Grosso do Sul, 500 caminhões aguardavam a hora de abastecer. Pernambuco contava com a chegada do navio Itarari para normalizar o abastecimento dos postos.

No início de janeiro de 1986, uma greve de caminhoneiros, por aumento no preço do frete e pela criação de um sindicato único, levou o presidente José Sarney a determinar que a Polícia Militar “auxiliasse a Polícia Rodoviária Federal a desobstruir a Via Dutra e a Washington Luís”, pois o desabastecimento já provocava confusão no Rio. O aumento da inflação em seu governo causou aumentos sucessivos nos preços em 1987. Em 7 de maio, três semanas após o último reajuste, a gasolina saltou de 14,80 cruzados para 19 cruzados, enquanto o álcool foi de 9,62 para 12,40 cruzados. O botijão de gás subiu de 70 para 90 cruzados. Para evitar pagar mais caro, motoristas seguiam para os postos, formando gigantescas filas. Cem pessoas depredaram e saquearam o posto Petrobras em Vicente de Carvalho.

Quanto ao álcool, o ápice da produção de automóveis aconteceu em 1986, quando 90% dos carros novos eram movidos com o combustível 100% nacional, após uma série de incentivos, como a cobrança de IPVA mais baixo. Mas a queda no preço do petróleo e o aumento no preço do açúcar no mercado internacional provocou um desequilíbrio na produção do combustível. Com os preços do açúcar subindo no mercado internacional, os produtores usavam a cana para fabricar açúcar, e não álcool. O produto começou a faltar e perdeu credibilidade. A demanda por etanol passou a atender apenas à antiga frota e ao álcool anidro, misturado à gasolina.

Com a hiperinflação nos anos 90, a cada anúncio de aumento no preço dos combustíveis, geralmente nas noites de sexta-feira, motoristas corriam para os postos. Como os reajustes eram significativos e frequentes — de dois a três por mês —, valia a pena aguardar em filas quilométricas para tentar encher o tanque do carro ainda com o valor antigo.

Em 23 de fevereiro de 1990, uma sexta-feira, último dia útil antes do carnaval, “a falta de álcool combustível obrigou os motoristas a uma peregrinação pelos postos e a uma espera que chegou a duas horas para encher os tanques dos automóveis”, informou o GLOBO no dia seguinte. A crise do álcool aumentou ainda a demanda por ônibus e reduziu a frota de táxis em circulação: “no Aeroporto Santos Dumont, por volta do meio-dia, 30 pessoas aguardavam táxi, sem perspectivas de atendimento”.

No início de março, locaute de um dia dos donos de postos de São Paulo provocou o fechamento de 95% dos estabelecimentos. Eles pleiteavam aumento na margem de lucro. Nos poucos postos abertos, as filas eram infindáveis. Revendedores do Rio e do Mato Grosso do Sul ameaçavam aderir ao movimento. Em abril, novas filas, desta vez dos proprietários de carros a álcool, tumultuaram as ruas da cidade por vários dias.

Nova crise estourou na primeira semana de junho de 1995, durante o governo Itamar Franco, quando 90% dos 2.100 postos cariocas ficaram secos, após greve dos petroleiros e dos motoristas de caminhão-tanque, os tanqueiros. Na ocasião, a Petrobras informou que os estoques só começariam a normalizar no Rio com a chegada de um navio com mais de 40 milhões de litros de gasolina importada.

Quanto à produção de álcool de cana, não só não atendeu à demanda de combustíveis no país, como tornou-se parte do problema. Em 2009, o hidratado representava 37% do volume total de combustível consumido no país, tendo caído em 2014 para cerca de 15%. Desde então, a produção voltou a crescer, com a ajuda do álcool de milho, para cobrir o período da entressafra, mas nada comparado ao auge do programa. Além disso, a produção de etanol de milho é mais cara que a da cana, tornando o combustível pouco competitivo.

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