BC argentino errou ao tentar segurar o câmbio, diz Redrado

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Por conta de um calote na dívida externa, nos cinco últimos anos do governo kirchnerista, o nível de reservas da Argentina caiu à metade. Sem acesso aos mercados internacionais, entre 2011 e 2015 cerca de US$ 25 bilhões foram praticamente engolidos por gastos públicos. Em pouco mais de dois anos na presidência, Mauricio Macri conseguiu reverter o quadro. Mas, agora, o crescimento do déficit em conta corrente e medidas tomadas pelo banco central argentino nos últimos dias para conter a alta do dólar acenderam o sinal vermelho.

Desde janeiro, US$ 5,9 bilhões em reservas foram usados para frear a desvalorização do peso frente ao dólar. O volume de recursos equivale a mais de 9% de do total de US$ 63,9 bilhões que o país possuía no início do ano. Na semana passada, a tensão aumentou. A demanda por dólares no mercado chegou a US$ 4,5 bilhões. Apenas em três dias mais de US$ 4,5 bilhões. Apenas em três dias mais de US$ 3 bilhões das reservas foram usados para tentar frear a alta da moeda americana. Na sexta-feira, último dia útil antes do feriado prolongado, o BC argentino fez nova tentativa para ajudar na recuperação do valor do peso. Anunciou aumento de três pontos percentuais na taxa básica de juros, para 30,25%.

Um amargo episódio na carreira fez com que o economista argentino Martín Redrado passasse a acompanhar com cautela o uso de reservas no país. Em 9 de janeiro de 2010 uma decisão da Justiça restituiu-lhe o cargo de presidente do banco central, que ele havia perdido na manhã do mesmo dia por meio de decreto da então presidente Cristina Kirchner. A exoneração ocorreu porque ele havia se negado a transferir reservas para pagamento de dívida pública.

À frente da Fundación Capital, Redrado é hoje um consultor internacional. Durante trabalho na Basileia, Suíça, no fim de semana, o economista concedeu entrevista telefônica ao Valor. Comentou as recentes medidas do BC argentino, que, para ele falhou ao tentar segurar a cotação do dólar por muito tempo. A situação não é, entretanto, dramática, diz, porque, ao contrário do passado, o nível de reservas é alto e o país tem, hoje acesso aos mercados internacionais.

O ex-presidente do BC argentino considera preocupantes, porém, o déficit fiscal que, com juros e amortização de dívida, equivale a 5,4% do Produto Interno Bruto, e o déficit em conta corrente, que chega a 5,3% do PIB – o que os economistas chamam de déficits gêmeos. Para ele, a economia do país precisa de um plano econômico bem definido. “As ações vêm sendo tomadas passo a passo”. Além disso, diz, o nervosismo dos últimos dias pode também afetar o Brasil. Qualquer dano ao crescimento do PIB argentino afeta as importações e, consequentemente o maior exportador, o Brasil. Acompanhe os principais trechos da entrevista:

Valor: A recente desvalorização do peso frente ao dólar foi provocada por fatores externos ou locais?

Martín Redrado: É uma soma dos dois. Há o aumento do custo do dinheiro nos Estados Unidos. Mas internamente temos os déficits fiscal e de conta corrente. Além disso, nos últimos 60 dias o banco central argentino trabalhou com um câmbio fixo. Isso caiu no mercado como um convite à demanda por dólares. Esse foi, a meu ver, o principal erro das medidas mais recentes. Valor: Qual é a sua avaliação sobre a decisão do Banco Central da Argentina de elevar em três pontos percentuais a taxa básica de juros?

Valor: Qual é a sua avaliação sobre a decisão do Banco Central da Argentina de elevar em três pontos percentuais a taxa básica de juros?

Redrado: Acredito que o banco central atuou bem. Quando há uma corrida, como aconteceu, é preciso buscar ferramentas. Para mim, no entanto, o BC poderia ter já recorrido à venda de dólares no mercado futuro. É preciso usar todos os instrumentos.

Valor: E qual tem sido o impacto das mensagens que o banco central argentino tem dado ao mercado. São confusas?

Redrado: A confusão surge porque a entidade passou 60 dias lutando para manter o valor do dólar na expectativa de frear a inflação. Depois, começou a queimar reservas e mesmo assim não conseguiu-se conter a alta do dólar.

Valor: O senhor acredita que a alta da taxa de juros foi uma medida transitória?

Redrado: Espero que seja. E também espero que também optem pela venda de dólares no mercado futuro. Acho que o banco central venceu uma batalha, mas não a guerra.

Valor: Qual sua opinião sobre o uso das reservas para controlar o câmbio nesse momento?

Redrado: As reservas estão próximas de US$ 60 bilhões, o que é bom. Além disso, o país hoje tem acesso aos mercados internacionais. O risco-país aumentou [em março] menos de 17%. Portanto, não é uma situação dramática.

Valor: Recentemente o governo argentino elevou a meta de inflação e agora enfrenta dificuldades para conter o câmbio. Qual será o impacto desse quadro no Brasil?

Redradro: O ideal seria que as duas economias pudessem crescer. A economia argentina é claramente vinculada à brasileira. Cada ponto percentual de crescimento do PIB argentino faz aumentar em três pontos suas importações. O Brasil é nosso maior exportador. Dessa forma, uma tensão como a de hoje afeta o crescimento da economia, que, por sua vez, afeta nossas importações e, consequentemente, as exportações do Brasil.

Valor: As pesquisas de opinião mostram queda na popularidade do presidente Mauricio Macri e na aprovação de seu governo. Os problemas econômicos como aumento das tarifas públicas e inflação se refletem na imagem de Macri e sua gestão?

Redrado: Em geral, a popularidade de Macri caiu nos últimos meses. Mas, ao mesmo tempo, ninguém da oposição despontou. Ou seja, o governo perdeu, mas ninguém ganhou. À medida que o salário real encolhe aparece uma classe média desencantada. Em contrapartida, esse cenário não beneficiou nenhuma liderança de algum outro grupo político.

Valor: Os dissídios trabalhistas sempre foram um fator de pressão inflacionária na Argentina. Como isso se dará este ano?

Redrado: No fim do ano passado o governo elevou a meta de inflação para 2018 de 8% a 12% para 15%. Uma das primeiras categorias a negociar este ano, a dos bancários, já aceitou reajuste de 15%, mas, no acordo, estabeleceu-se que haverá novas negociações em outubro caso o ritmo inflacionário cresça. O governo joga com a expectativa de que em outubro a inflação esteja menor.

Valor: E qual a sua previsão de inflação para o ano?

Redrado: Na Fundación Capital trabalhamos com a previsão de 21,3%. De qualquer forma, a inflação na Argentina vai lentamente baixar. Saímos de 24,5% no ano passado, ficaremos em pouco mais de 21% este ano, e entre 16% e 18%, segundo nossas previsões, em 2019.

Valor: Na sua opinião, a inflação ainda é o maior problema na economia argentina?

Redrado: O maior problema hoje é não termos um plano econômico. Temos enfoques na política econômica, mas falta sintonia entre eles. O governo lançou um programa de gradualismo. Mas entendo que esse gradualismo está desordenado. E, desordenado, principalmente, com o gasto público. Se vamos buscar, por exemplo, 20% de inflação, o aumento do gasto público não pode passar de 20%. Assim como o reajuste dos salários públicos também tem que ficar no teto de 20%. A política macroeconômica precisa estar alinhada com arrecadação e despesas.

Valor: O atual governo não conseguiu, ainda, portanto, colocar a casa em ordem?

Redrado: Colocou a casa em ordem, mas sem um programa macroeconômico. O governo passou os últimos dois a três anos resolvendo os problemas passo a passo, sem definir caminhos para gastos.

Valor: Mas a atividade econômica tem crescido…

Redrado: De fato, começamos a seguir uma trajetória. Entre 2010 e 2015 a economia do país crescia um ano, mas caía no outro. Agora conseguimos eliminar esses pêndulos. Houve uma expansão em 2017, haverá em 2018 e a perspectiva é crescer também em 2019 e 2020. Por outro lado, estamos em níveis mais baixos do que precisamos. O PIB cresceu 2,7% em 2017 e vai avançar em torno de 2,5% este ano. Teríamos que estar em torno de 4% a 4,5%. Além disso, não há um alinhamento entre atividades. Alguns setores, como o de energia e telecomunicações, crescem enquanto outros estão estagnados ou em queda.

Valor: Mas a crise no Brasil também afetou a Argentina, não?

Redrado: Não podemos jogar a culpa no Brasil. É verdade que a crise brasileira provocou um impacto na nossa indústria. E quando o Brasil vai bem é bom para a Argentina também. Mas os problemas de um país precisam começar a ser solucionados olhando, antes de mais nada, para o que acontece no próprio país.

Matéria original, em Valor Econômico.

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