Complexo do Alemão, antiga terra de nascentes, tornou-se palco de violência

Favela

Conhecido há décadas como uma das regiões mais violentas do Rio de Janeiro, o Complexo do Alemão reúne em suas 15 principais comunidades cerca de 70 mil pessoas, segundo o Censo 2010. Localizado às margens da Avenida Brasil, o lugar é limitado pelos bairros de Olaria, Penha, Inhaúma, Bonsucesso, Higienópolis e Ramos, e sua denominação é fruto de equívoco na identificação da nacionalidade do polonês louro comprador das terras repletas de nascentes no início do século passado, das quais ainda restam algumas, que logo se transformam em valas negras pela falta de saneamento básico. De área rural, tornou-se polo industrial a partir da década de 40 mas, nos anos 80, a ocupação desordenada acabou atraindo o tráfico de drogas. A seguir, um histórico do complexo de favelas.

1) 1920. Origem tímida com pé na Europa

O surgimento do Complexo do Alemão remonta ao começo do século XX. Na década de 1920, o polonês Leonard Kaczmarkiewicz deixou a Polônia, ao fim da Primeira Guerra Mundial, e adquiriu terras na Serra da Misericórdia, região rural da Zona da Leopoldina. A localidade recebeu o nome de “Morro do Alemão” em alusão às características físicas do proprietário.

2) 1940. A era das máquinas

A área rural sob posse do polonês começou a mudar de perfil nos anos 1940, com a abertura da Avenida Brasil. Grandes empresas ocuparam as terras e iniciaram ali um polo industrial. Entre elas, figurava o Curtume Carioca, que chegou a ser uma das maiores fabricantes de couro do continente e cuja implantação no local foi notícia no GLOBO em 23 de setembro de 1942. A companhia atraiu famílias de operários e ajudou a fixar os primeiros moradores do morro.

3)1980. A consolidação do Complexo

O movimento comercial e industrial provocou a ocupação desordenada dos morros adjacentes ao Alemão. O boom de migrantes se deu no primeiro governo de Leonel Brizola, entre 1983 e 1987. Começava a se configurar ali o Complexo do Alemão, que hoje se estende pelos bairros de Olaria, Ramos, Bonsucesso, Penha e Inhaúma, Zona Norte do Rio de Janeiro.

4) 1994. A morte de Jogador

A invasão do tráfico espantou os negócios da região, também afetada pela entrada da cocaína nos morros cariocas, durante os anos 1980. Em junho de 1994, o histórico de violência ganhou um novo capítulo, com a morte de Orlando da Conceição, o Orlando Jogador. Dono do comércio de drogas no Complexo, foi assassinado pelo bando de Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê. O algoz era chefe do Morro do Adeus, área pertencente ao conjunto de morros.

5) 1994. O início de uma guerra

A morte de Orlando Jogador abriu um precedente na configuração do crime no Rio de Janeiro. Os bandidos mais jovens, revoltados com a facção de Uê, criaram outro comando, ainda mais violento. Aqueles descontentes com Orlando foram para o grupo inimigo, dando início a uma guerra persistente.

6) Maio de 2002. O assassinato de Tim Lopes

Em junho de 2002, o jornalista Tim Lopes, da TV Globo, foi capturado pelo bando de Elias Maluco durante uma investigação sobre consumo de drogas e abuso sexual de menores em um baile funk na favela da Vila Cruzeiro. Condenado pelo tribunal do tráfico, Tim foi torturado e assassinado.

7) 2007. Visita do presidente Lula

O Complexo do Alemão recebeu a visita do então presidente Lula, acompanhado pelo governador à época, Sérgio Cabral, e por outras autoridades. Em clima de agitação e euforia, Lula lançou o projeto Territórios de Paz, com investimentos de R$ 15 milhões para a região, derivados de um programa nacional. A proposta tinha a intenção de afastar os jovens da criminalidade.

8) Maio de 2007. A atuação do Bope

Em maio de 2007, o Bope iniciou uma operação para desarticular o tráfico no Alemão que deu início a uma guerra que tinha o conjunto de favelas como palco. Somente nos primeiros 17 dias de operação, foram 16 mortos e 53 feridos.

9) 27 de Maio, 2007. A entrada da Força Nacional

Uma operação mobilizou 1.350 homens das policiais Civil e Militar e homens da Força Nacional de Segurança deixou 19 mortos, entre eles dois adolescentes. Em novembro, uma análise da Secretaria Especial de Direitos Humanos concluiu que dois homens mortos apresentavam sinais de execução sumária. O então secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, fez críticas e chamou o documento de “relatório alternativo”.

10) 2008. A fortaleza do tráfico

No primeiro ano após a saída dos homens da Força Nacional do Complexo do Alemão, armas e drogas voltaram a entrar livremente no conjunto de favelas. Sem operações nos morros da região desde setembro de 2008, os chefes do tráfico construíram várias casamatas, inclusive subterrâneas, em galerias pluviais. As fortalezas teriam sido construídas durante as obras do PAC nas favelas do Complexo.

11) 28 de Novembro, 2010. A fuga histórica

O dia ficou marcado na história do Complexo do Alemão. Naquele dia, uma megaoperação da polícia que mobilizou mais de 2.700 homens terminou na tomada do controle do conjunto de favelas pelo Estado. Com apenas três mortes, todas de traficantes da região, a operação foi considerada exemplar, e teve como imagem mais emblemática a fuga em massa de criminosos por uma estrada de terra da Vila Cruzeiro.

12) 28 de Novembro, 2010. Tomada do território

Naquele mesmo dia, uma outra imagem tornou-se sinônimo do sucesso da megaoperação: já com o Complexo do Alemão sob controle das forças de segurança, uma bandeira do Brasil foi hasteada no topo do Morro do Alemão por policiais do Bope, simbolizando a ocupação do conjunto de favelas.

13) 19 de Dezembro, 2010. Árvore da Paz

Sob clima de paz, uma árvore de natal de 20 metros de altura é inaugurada na estação do teleférico, no Morro do Adeus. Composta por 30 mil lâmpadas LED, a árvore ficaria acesa até o dia 6 de janeiro do ano seguinte. Na ocasião, a atriz Regina Casé fez uma contagem regressiva junto com percussionistas do grupo AfroReggae.

14) 8 de Julho, 2011. O Teleférico do Alemão

O Teleférico do Alemão foi inaugurado em julho de 2011. Para cortar o laço vermelho, compareceram a então presidente, Dilma Rousseff, e, à época, o governador Sérgio Cabral e o prefeito Eduardo Paes. A construção simbolizava a conquista do conjunto de favelas e a promessa de dias de paz pelas forças de segurança.

15) 27 de Março, 2012. PM substitui Exército

Policiais do Bope (Batalhão de Operações Especiais) e do Batalhão de Choque começam a substituir as tropas do Exército nos complexos de favelas do Alemão e da Penha para a implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs).

16) 18 de Abril, 2012. Instalação das UPPs

São instaladas as primeiras Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), na Fazendinha e na Nova Brasília.

17) 8 de Outubro, 2012. Gravação de novela

Cenas da novela “Salve Jorge”, da TV Globo, são gravadas no Complexo do Alemão. A autora Glória Perez mostrou histórias de guerreiros anônimos, misturando realidade com ficção.

18) 27 de Dezembro, 2013. Delegacia do Alemão

Foi inaugurada a 45ª DP no Complexo do Alemão. A unidade, instalada em um imóvel com área total de 256,68 metros quadrados, dentro da Estação Itararé do Teleférico, contava com um Núcleo de Atendimento à Mulher.

19) 28 de Abril, 2014. UPA é depredada

Bandidos invadiram a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da comunidade, na Estrada do Itararé, no Alemão. Equipamentos e instalações da unidade de saúde foram depredados. A ação gerou pânico e correria entre pacientes e funcionários da UPA. Um enfermeiro tentou intervir e recebeu pauladas na cabeça. Uma médica, desesperada, disse ter escapado da unidade pulando a janela. No mesmo dia, três ônibus foram incendiados na comunidade durante o protesto.

20) 11 de Novembro, 2014. O retorno da violência

Em 2014, quatro anos após a ocupação do Complexo do Alemão pela polícia, a atuação de traficantes voltou a gerar sérios conflitos com a polícia no Alemão, que aos poucos voltou à realidade de violência. Em setembro, o capitão Uanderson Manoel da Silva, comandante da Unidade de Polícia Pacificadora Nova Brasília, foi morto durante um confronto. Foi o primeiro comandante de uma UPP morto em uma comunidade do Rio.

21) 2 de Abril, 2015. Morte do menino Eduardo

O menino Eduardo Ferreira Calei, de 10 anos, foi morto com um tiro de fuzil na nuca na comunidade do Areal, no Complexo do Alemão, durante confronto entre policiais militares e traficantes. Foi comprovado que o tiro partiu da arma de um policial militar. Em dezembro de 2016, a Justiça arquivou o processo contra os dois policiais acusados de matarem Eduardo, em decisão pela 2ª Câmara Criminal.

22) 18 de Outubro, 2016. Crise para o teleférico

O teleférico do Complexo do Alemão para de funcionar, por tempo indeterminado, por falta de pagamento do estado, segundo a consórcio Rio Teleféricos.

23) 2017. Alemão nos dias de hoje

Só em 2017, 29 moradores ficaram feridos durante tiroteios. Dez morreram. Além disso, sete policiais militares ficaram feridos. Nos últimos cinco dias, cerca de 1.800 alunos das redes municipal e estadual ficaram sem aulas por causa da violência. Só no dia 24 de abril, dois policiais do Bope foram baleados durante uma operação no complexo de favelas.

Por Daniela de Paula, Luisa Valle, Gabriel Oliveira e Hugo Limarque, em O Globo.

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