A história de dez favelas do Rio, desde a Providência e Rocinha até a Maré

PMs na favela

Quem mora dentro ou nos arredores das favelas do Rio de Janeiro está acostumado com o caos e a violência. Tiroteios, operações policiais e o descaso público são uma constante na vida dessa população. Muitas vezes o horror vivido pelos moradores, que acaba atingindo áreas próximas, deu notoriedade a essas comunidades, nacional e internacionalmente.

Histórias da Cidade de Deus foram mostradas nas telonas e ganharam mais repercussão com as várias indicações do filme homônimo de Fernando Meirelles ao Oscar. Já a Rocinha, uma das maiores favelas do Rio, é conhecida no exterior por enfrentar há décadas conflitos entre facções rivais e operações policiais. Entre casos que marcaram a vida da cidade estão uma grande operação policial realizada ainda em 1963, no Morro da Providência, primeira favela do Rio, e a execução de quatro jovens no Morro do Borel.

O Acervo O GLOBO listou dez comunidades no Rio, localizadas nas zonas Norte, Sul e Oeste, além do Centro, para contar como surgiram e sua transformação, pela ausência do Estado, em refúgio de criminosos e alvo de operações policiais que deixam um rastro de violência.

1) Morro da Providência – Primeira favela do Rio, a região atrás da Central do Brasil, entre o Santo Cristo e a Gamboa, começou a ser ocupada após a Guerra dos Canudos, em 1897, por soldados vindos da Bahia. Seu caráter pioneiro não é só cronológico: o nome “favela” tem origem no Morro da Favela, local onde os soldados haviam ficado em Canudos e era comum uma planta com esse nome. Ao chegarem no Rio, decidiram dar o mesmo nome ao lugar que seria seu novo lar. A comunidade, no entanto, passou a ser considerada uma das mais perigosas da cidade, com sinais de violência já em 1948. No entanto, foi em 1963 que a polícia fez a primeira grande operação na região: utilizando 500 policiais, cães adestrados, um helicóptero e rádios transmissores, a polícia prendeu 223 pessoas, desmantelou uma rádio clandestina e apreendeu armas e produtos contrabandeados. Cinco anos depois, em 29 de dezembro de 1968, uma explosão de dinamite derrubou mais de 20 barracos no morro, deixando pelo menos sete mortos e 600 desabrigados. Ocupado pela PM desde março de 2010, o Morro da Providência também recebeu UPP no mês seguinte, mas não deu fim aos conflitos entre tráfico e polícia. Em 2018, um tiroteio provocou a paralisação de toda a linha 2 do VLT, na Zona Portuária do Rio. Policiais da UPP Providência foram recebidos a tiros por criminosos na área conhecida como Pedra Lisa.

2) Cidade de Deus – Alçada à fama pelo filme homônimo de Fernando Meirelles, a comunidade nasceu da desapropriação de favelas localizadas na Zona Sul do Rio. Uma política urbana adotada no fim dos anos 60 levou os moradores desses locais para pontos periféricos da cidade. Os que aceitaram ir para a Zona Oeste foram instalados em conjuntos habitacionais deficientes em serviços como transporte, educação e saúde. Junto com a comunidade cresceu o tráfico de drogas, a partir dos anos 70, impondo uma rotina de violência à Cidade de Deus. Dados do IBGE de 2010 mostram que a favela era ocupada por 36.515 habitantes. Mesmo tornando-se conhecida mundialmente após o long-metragem, recebendo investimentos e uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) em 2009, a violência persiste. Somente no segundo semestre de 2016, foram registrados 79 tiroteios na comunidade, deixando sete feridos e 14 mortos. Em 2017, 175 ocorrências, liderando o ranking de tiroteios e disparos do município. Foram notificados 19 mortos e 45 feridos no período. Os dados são do aplicativo “Fogo Cruzado”.

3) Rio das Pedras – Segunda maior favela do Rio ( 63.484 pessoas em 2010), divide-se entre os bairros do Anil, Jacarepaguá e Itanhangá, na Zona Oeste. Nos anos 2000, foi o berço das milícias, poder paralelo que surgiu sob o pretexto de expulsar o tráfico de drogas. Por ser dominada por grupos paramilitares, a violência acontece de forma diferente: moradores são obrigados a pagar uma taxa de proteção e preços abusivos por produtos e serviços, como botijão de gás, galão de água, transporte público clandestino e TV a cabo pirata. Os bandos intimidam moradores que contestam sua forma de agir e matam para demonstrar força.

4) Complexo do Alemão – Como o nome indica, a favela é, na verdade, um conjunto de 15 comunidades, sendo a mais famosa a do Morro do Alemão. Durante muito tempo foi considerada a área mais perigosa do Rio de Janeiro, passando, a partir de 2011, por um forte processo de pacificação visando a diminuir a violência local. O nome do território vem de seu primeiro proprietário, o polonês Leonard Kaczmarkiewicz. A região já foi área rural, tornou-se polo industrial a partir da década de 40 e, nos anos 80, a ocupação desordenada criou o ambiente perfeito para o surgimento e proliferação do tráfico de drogas. Alguns momentos trágicos marcaram a história do complexo: em 2010, uma operação entrou na favela em busca de bandidos fugidos da Vila Cruzeiro. A ação, que teve apoio da Marinha e do Batalhão de Operações Especiais (Bope) da Polícia Militar, dominou o Morro do Alemão e diminuiu temporariamente a atuação do tráfico. Em 2012, houve a implantação de uma UPP, mas em 2014 a violência voltou ao Alemão, com o tráfico retomando força.

5) Complexo da Maré – Outro conjunto de comunidades — que reúne 16 favelas, sendo o maior do Rio —, o complexo surgiu às margens da Baía de Guanabara e começou a ser ocupado na primeira metade do século passado. As primeiras habitações eram palafitas, mas, com o tempo, a região foi sendo aterrada com restos de obras e outros materiais. Em 2005, moradores da Maré tentaram interditar a Linha Vermelha e a Linha Amarela, após a morte de um menino de 11 anos na comunidade. Durante a manifestação, policiais trocaram tiros com traficantes, e motoristas que passavam pela via tiveram que se proteger atrás da mureta de uma das vias. Em 2014, a Maré ficou conhecida por uma megaoperação, numa tentativa do estado de assumir o controle das favelas. Os 20 blindados e 2.750 militares de Exército, Marinha e PM ocuparam as áreas sem entrar em confronto com traficantes. A ação preparou o terreno para a implantação da UPP da Maré, mas o que realmente se firmou dentro das comunidades ocupadas foi uma Força de Pacificação organizada pelo Exército. O projeto de UPP nunca saiu do papel.

6) Rocinha – A área que hoje abriga a maior favela do Rio de Janeiro (69.356 habitantes, segundo o censo de 2010) já foi uma grande fazenda de gado nos séculos XVIII e XIX. Já no início do século XX, o terreno foi dividido em chácaras que passaram a abastecer feiras na Gávea. Lá, os fornecedores diziam se orgulhar dos produtos que vinham da sua “rocinha”, o que deu nome ao local. Com a expansão dos bairros Ipanema e Leblon, na Zona Sul carioca, a favela começou a subir o morro para abrigar nordestinos que vinham trabalhar na construção civil e na prestação de serviços. Localizada em área nobre do Rio, a violência na Rocinha já transbordou para as terras abastadas do Alto Leblon. Em 2006, um tiroteio deixou o bairro no escuro após criminosos destruírem um transformador, deixando os moradores sem luz e ao som de tiros. Bandidos do morro Pavão-Pavãozinho que tentaram invadir a Rocinha passaram a noite na mata e, ao amanhecer, invadiram condomínios do bairro de luxo para escapar. Outro caso que ficou conhecido foi o sumiço do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, em 14 de julho de 2013, visto pela última vez ao ser conduzido por policiais militares até uma viatura, e que gerou a campanha “Cadê o Amarildo?”. Em 2017, a comunidade passou a viver um clima de guerra. Após a prisão do traficante Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, da facção Amigos dos Amigos (ADA), o segurança pessoal de Nem, Rogério 157, assume como chefe do tráfico. Rogério 157 rompe com o ADA e se alia ao Comando Vermelho, expulsando aliados de Nem do morro. Bandidos aliados ao ADA se juntam para tentar expulsar 157 e recuperar o poder na Rocinha, afundando a comunidade em uma guerra que já deixou 38 pessoas mortas desde setembro daquele ano.

7) Morro da Mangueira – Lar do compositor Cartola e da escola de samba Estação Primeira, o Morro da Mangueira também abriga uma história complicada de pobreza, violência e criminalidade. Os primeiros barracos surgiram após a morte do Visconde de Niterói, que ganhou as terras do Imperador Dom Pedro II. A região era uma das principais produtoras de mangas do Rio, característica que deu o nome para estação de trem inaugurada em 1889 e acabou sendo adotado pelas áreas ao redor da estação. No morro, samba e tráfico se misturaram. Em 2008, a polícia achou indícios de que a quadra da Mangueira estaria sendo usada como passagem para os traficantes. Durante uma inspeção, descobriu-se uma casa supostamente alugada pelo ex-presidente da bateria, Ivo Meirelles, abaixo do camarote dos ritmistas. Em um dos cômodos, os agentes descobriram obra recente para fechar passagem improvisada em uma das paredes que dá acesso ao morro. Em 2011, foi implantada uma UPP na favela, mas a rotina de violência não desapareceu. Dois anos depois, bandidos renderam um PM próximo à UPP, roubaram sua pistola e mataram um homem identificado como Jefferson Fernandes de Oliveira ao lado do contêiner que serve de sede para a unidade. Em 2015, criminosos comandados pelo traficante conhecido como Playboy tentaram invadir a comunidade, mas foram surpreendidos por uma operação do setor de inteligência da Polícia Militar. Quatro suspeitos morreram e dois policiais sofreram ferimentos leves. Em meados de 2017, criminosos atacaram a UPP da Mangueira, deixando um PM morto com um tiro na cabeça e outro ferido.

8) Jacarezinho – Conhecida por ser o local de nascimento do ex-jogador de futebol Romário, a comunidade teve início nos anos 20 do século passado, junto com a expansão do bairro Jacaré. No dia 25 de novembro de 2010, uma operação realizada por 200 policiais civis, com o apoio da PM, fechou o comércio da comunidade e assustou os moradores. Sete traficantes foram mortos e os agentes apreenderam armas escondidas nos barracos. Em 2011, o Bope ocupou a favela para a implantação de UPP na região. Cinco traficantes morreram, seis outros foram presos e um policial foi ferido por estilhaços na perna durante a operação. Armas e drogas também foram apreendidas. A UPP só foi instalada dois anos depois, em16 de janeiro de 2013. No primeiro dia de 2018, a basa da UPP do Jacarezinho foi atacada durante uma troca de turnos, baleando um policial.

9) Morro do Pavão-Pavãozinho – Mais uma favela carioca em área nobre da cidade, a comunidade surgiu na década de 30 com a ocupação da região por pessoas atraídas pelo mercado de trabalho em Ipanema e Copacabana. O Pavão-Pavãozinho faz divisa com o Morro do Cantagalo, formando um dos complexos mais famosos da cidade. Na década de 60, a primeira tragédia assolou a favela: uma grande pedra se soltou do alto do morro, arrastando várias casas e matando moradores. Em 1983, um novo acidente: uma antiga caixa d’água caiu e provocou desabamentos e mais mortes. Boa parte da sua fama vem dos intensos confrontos entre polícia e traficantes, mas, após a implantação da UPP, em 23 de dezembro de 2009, os moradores viveram um período de paz. Em 2014, traficantes voltaram a levar o medo ao local, quando encurralaram uma equipe de peritos na região conhecida como Quinta Estação. Já em 2017, uma viatura da UPP foi atacada a tiros por traficantes locais durante patrulhamento.

10) Morro do Borel – Localizado na Tijuca, começou a ser ocupado na década de 20 do século passado pela população removida do Morro do Castelo, demolido para obras de modernização no Centro. O morro ganhou o noticiário após, em 1996, o traficante Elias Maluco ser preso pela primeira vez. O Borel era um dos 13 pontos de tráfico controlados pelo bandido. Elias voltou às páginas policiais anos depois, em 2002, como mandante do assassinato do jornalista Tim Lopes na Vila Cruzeiro, favela onde o repórter investigava o tráfico de drogas e a prostituição infantil em bailes funk. Em 17 de abril de 2003, um caso de violência extrema chocou a cidade: quatro jovens foram mortos por PMs no Borel, acusados de fazer parte de um bando de traficantes e portar armas e drogas. Na verdade, os jovens eram o motorista de táxi Everson Gonçalves Silote, de 26 anos; o mecânico Thiago da Costa Correia da Silva, de 19; o pintor e pedreiro Carlos Alberto da Silva Ferreira, de 21; e Carlos Magno de Oliveira Nascimento, de 18 anos, que morava na Suíça com a mãe, mas estava no Brasil para fazer o alistamento militar obrigatório, por causa da dupla nacionalidade. Nenhum deles tinha antecedentes criminais. Dos cinco PMs denunciados, dois foram absolvidos e um foi condenado, mas, depois de recorrer, passou a aguardar julgamento em liberdade. Três anos depois, em 2006, Lohan, um menino de 9 anos, morreu quando um tiro de fuzil atingiu seu rosto em um confronto. Durante a operação para implantação da UPP do Borel, em 28 de abril de 2010, três suspeitos foram presos próximo a um dos acessos da favela. Em 2017, a polícia justificou um cerco ao morro afirmando que bandidos fugidos da Rocinha estariam utilizando trilhas na mata até as favelas da Tijuca. Já em 2018, policiais do Bope foram recebidos com tiros dentro da comunidade, e um suspeito foi morto durante a operação.

Por Allan Borba, em O Globo.

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