Para entender melhor o Fóruns e Redes de Cidadania: 2º parte da entrevista com o Juiz do Povo, Jorge Moreno (por Gustavo Guimarães)

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Jorge Moreno, o juiz do povo.

Esta é a segunda de uma série de quatro publicações realizadas pelo Jornal A Pátria e o movimento Nova Pátria, através de uma entrevista com uma das lideranças do movimento Fóruns e Redes de Cidadania, o camarada Jorge Moreno.

Em nossa busca pela compreensão da realidade do povo pobre e camponês do Maranhão, aqui reproduziremos uma interessante reposta que aborda tanto a formação de um grande movimento, mas também os desafios e barreiras postadas diante de grandes dirigentes populares.

POVO MANDA, GOVERNO OBEDECE!

Contaremos com a participação do editor das matérias desta série, através dos sinais de parênteses, complementando ou tomando nota de alguma informação importante para o entendimento dos leitores.

Segue a transcrição da segunda parte da entrevista.

JORGE MORENO SOBRE O ‘FÓRUNS E REDES DE CIDADANIA’

Jorge Moreno: O surgimento do Fóruns e Redes está muito ligado ao esfacelamento, o desanimo que se abateu sobre setores mais progressistas de esquerda depois da eleição do governo Lula.

Primeiro, antes das eleições existiam muitos setores desanimados no sentido de que o projeto político estava encaminhado para ser esse de centro-esquerda, essas alianças com setores de centro, e no Maranhão, essa aliança com o sarneysismo, que foi praticamente a prioridade das alianças de Lula. E esses setores progressistas de esquerda no Maranhão sempre foram alvos da violência do sarneysismo, principalmente os setores populares e do campesinato.

Essa foi a primeira questão.

A segunda diz respeito a questão do sindicalismo. O sindicalismo rural se acoplou, se diluiu a agenda do estado, trabalhando só essas questões da aposentadoria, pensões, e esqueceu essa parte da luta e da resistência camponesa que no Maranhão é enorme. Por exemplo, na década de oitenta ele foi um dos estados mais violentos do país nessa questão agrária.

E a questão da Igreja Católica, a atuação do Papa João Paulo II, que sufocou as comunidades eclesiais de base, e no Maranhão essas comunidades sempre foram uma força muito preponderante, não só na igreja, mas socialmente, isso criou um baque muito grande. Esses setores populares estavam muito fragmentados e dispersos, ou seja, enfraquecidos.

Então a gente começou a discutir com as pessoas desses diversos segmentos, no sentido de fazermos uma agenda comum, uma pauta comum de trabalho, que em primeiro momento foi de criar um espaço de resistência, porque essas pessoas estavam sem locais de atuação em trabalho; em segundo momento, a gente passou a intensificar o processo de formação; e em terceiro, passamos a construir uma agenda em comum, que contemplasse a questão do debate da cidadania, a implementação de políticas públicas, trazer pra agenda do dia-à-dia as questões diárias e urgentes da população, e trazer a situação da reforma agrária como pauta.

Que o governo Lula e o governo Dilma nesse sentido foram um desastre pro Maranhão. Eles privilegiaram as pautas do agronegócio. As terras do Maranhão, do sul, dos centros e as mais ao leste foram praticamente todas dadas ao agronegócio e incentivadas não só pelo governo federal, mas por acordo com o governo do estado. E isso gerou uma situação de conflito, mas um conflito exportável: a maioria dos camponeses do Maranhão foram pro Pará, ou foram deslocados como mão-de-obra para outros estados. Então onde você olha trabalho escravo hoje tem maranhense, pra onde você olha esses grandes massacres como o que teve recentemente no Pará, ou na região norte, tem maranhense. Esses que foram expulsos do Maranhão por conta da falta completa de política pública e pelo apoio que o governo federal retirou desses setores que praticamente foram mais marginalizados ainda.

Então a gente conseguiu fazer essa pauta, trazer todos esses atores sociais para um debate, para que a gente conseguisse rearticular um movimento com outras características. Um movimento que não tivesse vínculos partidários ou governamentais, que tivesse uma autonomia financeira, que politicamente pudesse fazer sua agenda independente, que acreditasse na resistência de que direito você não conquista se não for através de resistência e luta. Um movimento que não aceita fazer diálogo a não ser através da pressão, porque não dá para você sentar na mesa e fazer essas coisas que acabam as entidades da sociedade civil fazendo, essa falsa ideia de diálogo, que senta para não discutir nada e não resolve nada. Então acaba os movimentos caindo numa certa agenda do estado que tem como finalidade amortecer a luta, retirar o protagonismo das pessoas.

A gente começou a refazer toda essa lógica de ocupar, de resistir, de ir pro embate, de não ter medo de autoridade. De que quando o juiz expediu uma decisão de reintegração de posse, a gente ia pra frente dos fóruns e queimava a decisão do juiz. A gente fazia ocupação de espaços públicos no sentido de mostrar não só o sofrimento, mas que aquela população estava exercendo o seu protagonismo enquanto cidadão, ser humano e como militante social, então a gente criou uma lógica no Maranhão não só de rearticular a luta, mas a organizar o povo de forma independente, de forma proativa, protagonista, para que ele pudesse passar para outro patamar de organização no nosso estado.

O Fóruns e Redes nasceu aproximadamente, como organização, no ano de 2006, muito embora desde 2002 a gente tivesse fazendo jornadas, que eu mesmo fiz diversas jornadas, percorri 186 municípios do Maranhão, fazendo assembleias, plenárias, manifestações, marchas, pra poder rearticular o nosso povo para um processo de luta que se consolidou no ano de 2006 quando nós fizemos a primeira experiência numa região do Maranhão que é próxima ao Pará, chamada de Turí, onde a gente conseguiu envolver articuladores sociais de 24 municípios e fazer uma pauta de luta na região.

Jornal A Pátria: Além das comunidades eclesiais de base, os antigos sindicalistas, e também setores da esquerda progressista decepcionados com o governo petista, além destes, quais grupos de atores sociais se juntaram para organização do Fóruns e Redes?

As pessoas que tinham formação na área de direitos humanos, pessoas que faziam esse trabalho, mas de forma individual e isolada, pessoas que estavam trabalhando na área de controle social, pessoas que trabalhavam essa questão de ir de contra a corrupção, diversos segmentos do campesinato, de comunidades quilombolas, de comunidades tradicionais – que no Maranhão tem bastantes.

Então esses segmentos todos começaram a se articular. A nossa lógica era assim, primeiro a gente encontra aqueles articuladores que são os tradicionais, que no Maranhão a gente encontrou em todos os municípios, que é aquele padre, aquela freira, aquele ex-sindicalista, aquele militante partidário, que tem contato com a comunidade e que muito embora tenha desanimado ainda tem uma certa percepção e uma inserção social, a gente entrava em contato com eles pra que eles convocassem uma audiência pública, uma plenária pública, um curso de formação, e a partir daí a gente começava a articular as pessoas.

A gente ia nas comunidades e praticamente nosso trabalho era de rearticular a base social do movimento. Não era puxar pessoas que todo mundo já conhecia para trazer para o movimento, não. Era de você ir até a comunidade, até onde estava a pessoal realmente sofrendo, até onde estava a pessoa que muito embora tivesse participado do movimento há um tempo, estava isolado, e trazer essa pessoa de volta pro movimento social.

A primeira etapa dessa articulação, nós conseguimos contatar diversos setores populares do Maranhão, muito embora fosse diversificado, mas a estrutura dele era das comunidades eclesiais de base. Que essa comunidade tinha aquela ideia de que você enquanto comunidade tem que criar os seus instrumentos de luta, então é associação, depois o sindicato e depois é o partido.

Então a gente encontrava pessoas nessas três esferas de atuação. Essas pastorais sociais também nos ajudaram muito a chegar a ter esse público que nós queríamos alcançar, que era a quebradeira de coco, o pescador, o quilombola, o indígena, o trabalhador rural, o agricultor familiar, o funcionário público; que em muitos locais o funcionalismo público é uma força social bastante forte e era e é muito violentado e humilhado nos municípios, em estados onde predomina o coronelismo como o Maranhão, onde praticamente o gestor se sente o dono, não só da coisa pública mas também do serviço público e das pessoas. E nós conseguimos trazer esse público para que fosse o público principal nesse nosso processo de organização, de formação e de desenvolvimento de protagonismo.



Um comentário sobre “Para entender melhor o Fóruns e Redes de Cidadania: 2º parte da entrevista com o Juiz do Povo, Jorge Moreno (por Gustavo Guimarães)

  1. JORGE MORENO E UM GRANDE LÍDER NO MEIO DO POVO MARANHENSE. Admiramos seu trabalho de articulação por justiça e dignidade na construção de un Novo Mundo é possível.

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