Feminismo cool, vitórias que são de outras

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A incorporação de algumas demandas do feminismo às agendas oficiais vem com a eliminação dos traços mais radicalizados do movimento. Esse giro não foi gratuito e construiu uma imagem obsoleta do feminismo como ferramenta de transformação social.

O abandono das ruas no fim da década de 1970 teve como consequência a progressiva institucionalização do feminismo, sua “ongzação” [do termo ONG] e integração às agendas oficiais. Através dessa integração, as feministas empreenderam o que Nancy Fraser chamou de um “giro enorme no imaginário feminista: enquanto a geração anterior buscou reconstruir a economia política, esta se concentrou em transformar a cultura” [1]. Hoje podemos dizer que o alcance dessa batalha cultural é, no mínimo, contraditório.

Embora as décadas de 1980 e 1990 estivessem marcadas pela “grande noite” neoliberal, também aconteceu, nos países imperialistas, o reconhecimento e ampliação de direitos civis. Temos desenvolvido nesta revista (este artigo foi publicado na Revista Ideas de Izquierda) uma crítica de vários aspectos desse processo, principalmente em relação a seu alcance limitado (majoritariamente restrito à classe média e alta) [2]. Em décadas marcadas pelo retrocesso dos movimentos radicalizados em nível internacional, ao mesmo tempo desse processo na esfera de direitos, aconteceu um movimento semelhante no âmbito cultural. A socióloga Eva Illouz se referiu a essa mudança como uma passagem de movimento político para “código cultural, usado na publicidade, em séries de TV, filmes e novelas românticas (…) isso inclusive tem feito com que o feminismo perca seu lado político, convertendo-se em algo sem sentido” [3].

Os Estados, organismos governamentais e a indústria cultural integraram esse feminismo, os primeiros como direitos, leis que “protegem” as mulheres, e a última como uma linguagem inclusiva e correta. De fato, as faces mais óbvias da velha sociedade patriarcal perderam algum peso (e se misturam às imagens modernas, muitas vezes seguindo velhos modelos). Já não é politicamente correto rir de expressões racistas ou xenófobas; e existem “cotas” de todos os setores oprimidos nos meios, simulando a cota feminina e a discriminação positiva da vida política (burguesa). E enquanto se mantêm vivos o racismo, o machismo ou a LGBTfobia, este “código cultural” encobre as marcas particulares das democracias capitalistas com tolerância e diversidade. Mas essa correção não é neutra. Como apontou Nancy Fraser, “as mudanças culturais impulsionadas pela segunda onda, saudáveis em si mesmas, têm servido para legitimar uma transformação estrutural da sociedade capitalista que avança diretamente contra as visões feministas de uma sociedade justa [4].

Esta operação transformou o feminismo em qualquer crítica radical e deixou ele aleijado de toda perspectiva transformadora (algo semelhante aconteceu com a luta contra o racismo ou a LGBTfobia). Quanto mais integrado se encontra esse “código”, mais dócil e inofensivo o feminismo se torna. A produção cultural é um claro exemplo dessa integração/redução do feminismo. Um dos resultados mais difundidos é uma coisa que poderíamos chamar de “feminismo cool”, que encarna o que essa sociedade aceita do feminismo (e, por omissão, tudo o que é excluído dele).

Um código cultural de integração

Como dissemos acima, a integração como “código cultural” não significou uma ampliação na influência da crítica social que o feminismo representou nas décadas de 1960 e 1970. O feminismo cool pode conter tanto a visão igualitária quanto seu contrário: a visão da diferença. Ambas ganharam terreno na indústria cultural: “positivamente”, com a incorporação de mais personagens femininas e menos estereotipadas (ou adaptações a estereótipos mais atuais) e, “negativamente”, com uma correção política “extrema”, que analiza a salvo as produções culturais. Mas em geral, ser feminista passou de um pronunciamento política a uma marca de status, de algo “cool”.

Essa mudança foi bem vinda como um “gesto de maturidade”, finalmente o feminismo abandonou a utopia de emancipação e libertação sexual. E de certa maneira foi isso mesmo. A segunda onda passou da crítica do Estado de bem estar nos países imperialistas e da aliança com os movimentos radicalizados, para a crítica da desigualdade de gêneros sem questionar a desigualdade fundamental da sociedade capitalista entre explorados e exploradores. De criticar a família burguesa como ditadora da vida sexual para limitar as demandas para a ampliação dos “tipos de família”. Da crítica à heteronormatividade à simples exigência do reconhecimento legal das sexualidades e gêneros. Essa passagem aconteceu paralelamente a um avanço significativo no reconhecimento de direitos negados durante décadas aos setores oprimidos [5]. Isso causou impacto na produção cultural da última década, onde as representações e as temáticas relacionadas ao movimento LGBT povoaram a TV e o cinema. Nas produções culturais norte americanas, com grande peso nas telas locais, a comunidade LGBT passou do estigma de personagem “esquisito” para ser protagonista de séries inteiras como The L Word, Looking, ou integrados a “famílias normais” como Modern Family [6]. Quase sem exceções, essas representações anulam por completo os conflitos. Nos casos onde a sexualidade está em primeiro plano, quase não existem conflitos econômicos, trabalhistas, ou sobre as condições materiais que dão um contorno específico à opressão sexual ou de gênero. Em Modern Family (a mais popular das séries mencionadas), os indivíduos estão integrados plenamente: casados, monogâmicos e com filhos. Essa mudança não significa o fim da estigmatização ou da LGBTfobia, nem sequer dos preconceitos, e o “código cultural” termina reproduzindo modelos adaptados que antes eram combatidos. As sexualidades “diferentes” são integradas contanto que respeitem as regras, e o modelo continua sendo o da família nuclear: mamãe/papai, mamãe/mamãe ou papai/papai, filhos.

Coisa semelhante ocorre com as representações das mulheres, inclusive com as representações do feminismo. As velhas imagens da mãe/esposa/dona de casa se diversificaram nas produções culturais. Ainda assim, o amplíssimo arco de representações femininas não exclui combinações explosivas de misoginia e feminismo com personagens poderosos como Claire Underwood (House of Cards), Olivia Pope (Scandal) ou Alicia Florrick (The Good Wife) [7]. Poderosas e independentes, se dividem entre o olhar do preconceito machista que chefia a industria de entretenimento (mulher fria e calculadora) e as concessões que as mulheres devem fazer para conquistar a igualdade que essa sociedade as oferece (inclusive nos níveis mais altos).

Além dessa mudança, ser feminista tornou-se quase um “dever ser” da correção política. As estrelas de Hollywood e as cantoras de pop milionárias são feministas. Alguns dos “marcos” feministas desta época, protagonizados por atrizes e estrelas da música, são o discurso da atriz Emma Watson na ONU apresentando a campanha HeForShe [8], o de Patricia Arquette no Oscar sobre a desigualdade salarial em Hollywood ou a turnê da cantora Beyoncé com a gigantografia FEMINIST em seus cenários. Atualmente as demandas elementais de igualdade se inserem em um esquema individual, coisa que pode ser resumida no que chamam de “feel-good feminism” (feminismo para se sentir bem) que, como a revista espanhola Pikara bem descreveu, resulta do feito de que

“…o discurso de igualdade entre homens e mulheres, que é a premissa básica do feminismo, evoluiu no conceito de ‘escolha de como viver minha vida ou meu próprio feminismo’ e se converteu em algo que as mulheres, e principalmente as mais jovens, estão mais dispostas a aceitar, sempre e o quanto mais seja sexy” [9].

Ou seja, a passagem do coletivo ao individual, da libertação à escolha, e da emancipação (que supunha a luta por outra sociedade) a obter maiores direitos (aceitando esta sociedade). E, é importante dizer, tanto as críticas do feminismo mainstream como as do feminismo queer apontam quase majoritariamente contra a sexualização excessiva ou a autocoisificação, ao invés de contra a mercantilização, normatização e institucionalização de que ambas correntes acabam sendo parte por ação ou por omissão.

Um tiro no pé

O problema central com essa versão cool do feminismo é que ele reduziu a luta pela libertação feminina a uma igualdade que aceita cada vez mais compromissos. E o principal é alimentar a ideia da possibilidade de uma batalha puramente individual, onde as mulheres escolhem como viver sua vida (as que podem fazer isso, é claro). Em uma das primeiras edições desta Revista Ideas de Izquierda, nos perguntávamos,

“Como fazer com que a ‘ampliação de direitos’ conquistada não se cristalize como estratégia última de integração, mas sim que se torne ponto de apoio para uma luta radical pela emancipação das mais amplas massas femininas? [10].

A pergunta desafia a ideia de que esta igualdade é tudo ao que metade do mundo pode desejar, submetida para benefício de um sistema social que oprime a maioria da humanidade.

Somado a essa redução, todo o caminho desandado por esse feminismo se converteu em território de batalhas entre os preconceitos reacionários que continuam sendo legitimados e reproduzidos, e abriu caminho para fenômenos impensados nas décadas do feminismo radical que atraiam às ruas não apenas as mulheres, mas também seus aliados, a juventude e os trabalhadores. Movimentos como “Mulheres contra o Feminismo” (formado centralmente por jovens, pequeno mas com bastante repercussão), surgido nos Estados Unidos, expressam a saturação da correção política feminista, dizem que a igualdade já existe e se opõem à “politização” do gênero. “Mulheres contra o Feminismo” mostra acima de tudo um afastamento total do feminismo que sai da boca dos organismos governamentais e os meios de comunicação, com a crítica feminista ¨segura¨ e o julgamento constante das atitudes. Um fenômeno semelhante ao seu espírito de época, ainda que muito diferente socialmente, é o que a periodista Emily Matchar, autora de Homeward Bound: why women are embracing the new domesticity (A Volta à Casa: por que as mulheres estão adotando uma nova domesticidade) analiza. Este livro, publicado em 2013, se adentra nos desejos das mulheres criadas pela geração da segunda onda, as que alcançaram os níveis educativos mais altos, que alcançaram cargos importantes nas empresas e organizações e abandonaram tudo para criar seus filhos e ficar no lar no século XXI. Não que todas essas mulheres reneguem o feminismo, muitas delas o entendem como a possibilidade de “escolher ficar no lar”, coisa que não contradiz essa versão do feminismo. Mas acima de tudo, renegam ou não estão interessadas em uma perspectiva coletiva que ofereça essa e maiores liberdades para todas as mulheres. Porque, não faltam marxistas que denunciem, estas “mamães hipsters” que cozinham orgânico, não usam plástico e educam seus filhos em casa, são de classe média-alta e podem sustentar suas famílias com a entrada do marido. Essa realidade só alcança uma minoria, coisa que a análise de Matchar não ignora. Como apontou uma resenha, ironicamente publicada na sessão “Comidas e Viagens” do Washington Post,

“a dissecção [de Matchar] da nova domesticidade levanta outros temas mais gerais sobre raça, classe e gênero. As mulheres brancas que ficam no lar são valorizadas com mais frequência que suas contrapartes negras, que arriscam ser taxadas de ‘rainhas da ajuda estatal’. As mulheres pobres com entradas mais baixas e menos tempo não podem cozinhar todas as comidas de um jeito caseiro e ficar na casa com seus filhos [11].

E isso acontece em grande parte porque se mantém a exaltação da mulher como mãe, como esposa e o âmbito doméstico continua sendo território de mulheres.

Enquanto essa realidade social continuar, qualquer escolha individual está condicionada e é aí que está o principal fracasso do feminismo cool. Ao eliminar toda perspectiva coletiva de transformação, mantém só para uma minoria a possibilidade de escolher, enquanto a maioria sobrevive em longas jornadas de trabalho e empregos precários (onde as mulheres sempre são a maioria [12]). As que podem pagar por escolhas individuais acreditam que o feminismo já não tem nada para oferecê-las e as que não podem pagar pela liberdade acreditam que o feminismo não tem nada a ver com suas vidas. Esse paradoxo se encontra em uma época em que a dualidade de sociedades se agudiza, com direitos formais ampliados (ainda que degradados pela crise social), e o ataque sustentado pelos Estados e setores conservadores aos direitos sexuais e reprodutivos, e níveis de violência contra as mulheres e opressão que aumentam de um jeito inesperado [13].

Essa realidade não é contestada pela igualdade condicionada ou a crítica pós-moderna do feminismo das publicidades, de Hollywood e da vida televisiva. Nas democracias capitalistas do século XXI, as reflexões das feministas socialistas que mantêm sua vigência são as que desafiam o movimento de libertação a não cair na armadilha de querer mudar apenas seu “pequeno mundo”. Juliet Mitchell escrevia em 1971 em Women’s State, “Se só desenvolvermos a consciência feminista… o que conseguiremos é, não uma consciência política, mas sim o equivalente ao chauvinismo nacional das nações de terceiro mundo ou o economicismo entre as organizações trabalhistas; um olhar que só vê a si mesmo, que só vê o funcionamento interno de um segmento; os interesses desse segmento. A consciência política responde a todas as formas de opressão”. As lutas sociais de nossa época provam que a advertência de Mitchell sobre as perspectivas da libertação feminina estava certa. O feminismo emsimesmado, em seu “pequeno mundo”, não representa hoje uma perspectiva nem uma ferramenta política e se torna duplamente obsoleto. Para reconstruir suas alianças estratégicas, o movimento de mulheres não precisa voltar ao passado, mas sim recuperar as bandeiras da transformação social, para conquistar sua emancipação e o fim de toda opressão.


Notas e referências

1 Nancy Fraser, Fortunes of Feminism: From State-Managed capitalism to Neoliberal Crisis, Londres, Verso, 2013.

2 A. D’Atri e C. Murillo, “¿Adiós a la revolución sexual? El estrecho horizonte del movimiento LGTB actual”, IdZ11, julho 2014. A. D’Atri, “Pecados & Capitales”, IdZ 7, março 2014, entre outras.

3 Eva Illouz, Erotismo de autoayuda, Cincuenta sombras de Grey y el nuevo orden romántico, Buenos Aires, Capital Intelectual/Katz, 2013.

4 Nancy Fraser, “El feminismo, el capitalismo y la astucia de la historia”, New Left Review 56, Madrid, 2009.

5 Varios aspectos de este debate están desarrollados en A. D’Atri y C. Murillo, “¿Adiós a la revolución sexual? El estrecho horizonte del movimiento LGTB actual”, IdZ 11, julho 2014.

6 Existem outras como Transparent que levantam outras críticas interessantes. Nos limitamos às séries con maior repercussão.

7 Tomamos esses exemplos apenas como amostra. Existe um universo muito mais complexo de personagens que varia inclusive nos diferentes gêneros. É notável o desenvolvimento dos personagens femininos no policial, que analisamos em “Todo Negro (IV): Femicrime”, La Izquierda Diario, 15/10/2014.

8 A campanha (Ele por Ela em português) encarna uma das expressões de feminismo “aceitável”, e se concentra na “defesa das mulheres e das meninas contra as desigualdades e a discriminação”.

9 M. L. Latorre, “¿Es Beyonce feminista?”, Pikara, 13/02/2014.

10 A. D’Atri y L. Lif, “La emancipación de las mujeres en tiempos de crisis mundial (II)”, IdZ 2, agosto 2013.

11 B. Crystal, “HOMEWARD BOUND Why Women Are Embracing the New Domesticity By Emily Matchar”,Washington Post, 19/07/2013.

12 Ver L. Ortega, “Entre la feminización del trabajo y la precarización”, IdZ 20, junho 2015.

13 Durante a última década, existiram em vários países europeus e nos Estados Unidos, iniciativas conservadoras contra o direito ao aborto e em geral contra os uldireitos reprodutivos. A isso soma-se o crescimento da violência contra as mulheres.

Tradução de Artemis Lyrae.

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