Charlottesville? Neonazistas? O que diabos está acontecendo nos Estados Unidos agora – e por que isso importa (por Guilherme Braga Alves)

Charlottesville é uma cidade no centro do Estado da Virgínia, com cerca de 50 mil habitantes. Sede da Universidade da Virgínia, C’ville foi invadida por supremacistas brancos neonazistas nos últimos dois dias.

Mas calma, primeiro um pouco de história. A cidade, do Sul estadunidense, decidiu remover a estátua de um general que representou os Confederados na Guerra Civil Americana (1861-1865). Estados Confederados foram os estados sulistas que tentaram se separar dos Estados Unidos, dentre outras coisas, porque queriam manter o sistema de escravidão, rejeitado pelo Norte.

Os Confederados perderam a guerra, mas símbolos e nomes expressivos da época são admirados até hoje pelos grupos racistas estadunidenses. Os generais do Sul são vistos como homens que lutavam pela liberdade confederada (especialmente a liberdade de escravizar alguém). Símbolos como a bandeira confederada são expostas em casas e caminhonetes gigantes, uma declaração bastante explícita de que o possante a sua frente é guiado por um racista que se orgulha disso.

Mesmo 150 anos depois da Guerra Civil, o sul estadunidense ainda concentra muito racismo escancarado. A Ku Klux Klan e as leis de segregação tiveram seu ápice por lá, mas mesmo no presente se observam atos bárbaros de ódio racial. Uma igreja de negros na Carolina do Sul foi incendiada por um supremacista branco em 2015 (1), matando nove pessoas. Ano passado, dias antes das eleições, outra igreja, dessa vez no Mississipi, foi incendiada e pichada com os dizeres “Vote Trump” (2).

Contudo, decisões políticas, como a remoção da bandeira confederada de prédios públicos, começam a ser adotadas. Assim como as decisões brasileiras que questionam viadutos, estradas ou escolas com nomes de genocidas e ditadores, essa discussão também causa ressentimento naqueles que se orgulham de um passado opressor.

É o caso de Charlottesville. A cidade resolveu remover a estátua de um general confederado de um parque no centro da cidade. Os neonazistas e supremacistas brancos de todo o país se organizaram e promoveram uma marcha até a cidade para protestar contra essa decisão e demonstrar força política.

Ontem eles realizaram uma passeata na Universidade da Virgínia. Não é por acaso: além do fato dessa direita ser anticiência, uma Universidade no Sul dos Estados Unidos representa um espaço de tolerância, acolhimento e segurança para grupos de minorias, assim como estrangeiros. A escolha de Charlottesville, portanto, foi estratégica.

Em maioria, os supremacistas brancos dispersaram as poucas pessoas – principalmente negros – que se levantaram para resistir ontem à noite. Carregando tochas, clara referência ao passado das noites de linchamento, eles ocuparam o campus da Universidade.

Hoje de manhã as coisas escalaram. Participando do evento ‘Unir a Direita’, os fascistas voltaram e gritavam frases como “Vocês não vão nos substituir” – em referência aos estrangeiros; “Judeus não vão nos substituir”. Carregavam bandeiras confederadas e cantavam músicas nazistas.

Houve resistência. Líderes religiosos, ativistas do Black Lives Matter e manifestantes anti-fascistas – os antifa – se reuniram em frente a uma histórica igreja negra da cidade.

Algum tempo depois, em marcha, os dois grupos se encontraram. Houve conflito. A polícia foi acionada e dispersou a multidão.

O governador do Estado da Virgínia decretou estado de emergência e declarou que tinha uma mensagem “a todos os supremacistas brancos e neonazistas que vieram a Charlottesville hoje: vão para casa. Vocês não são desejados nesta grande comunidade”.

Horas depois, enquanto os grupos de resistência ainda ocupavam as ruas, um carro avançou sobre a multidão, ferindo 19 pessoas e matando uma mulher de 32 anos.

O presidente estadunidense, Donald Trump, ao comentar o incidente, disse que “nós condenamos, nos termos mais fortes possíveis, esta exibição flagrante de ódio, fanatismo e violência em muitos lados, em muitos lados”.

VEJA BEM: Trump comparou a violência neonazista clara – os manifestantes exibiam suásticas! – com a devida, necessária e urgente resistência a esses atos nojentos.

Enquanto diversas pessoas urgiam a Trump que fosse explícito em condenar as manifestações neonazistas – incluindo alguns de seus companheiros de partido – os manifestantes fascistas se queixavam do presidente, afirmando que foram “os brancos americanos” que o colocaram na presidência.


O que acontece em Charlottesville é a prova de que a extrema direita ganha muita força nos últimos tempos. Não se vê manifestação como essa em muito tempo, e não seria imprudente acreditar que esse evento muito provavelmente ainda dará mais força ao ódio.

Se os alertas contra a xenofobia, o racismo, o nazismo, o fascismo, o pensamento anticientífico ainda eram vistos como exagero ou alarmismo, a Virgínia nos mostra hoje que eles são necessários e urgentes.

Outra lição que aprendemos hoje é o papel fundamental da História: é preciso que as pessoas sejam constantemente educadas e lembradas dos períodos de ódio pelos quais já passamos, para que o horror seja reconhecido e rejeitado. Bandeiras nazistas carregadas numa cidade estadunidense mostram que as pessoas desconhecem o passado e o horror; mais que este episódio isolado, inúmeras demonstrações diárias de ódio, preconceito e intolerância, ainda que singelas, contribuem para que esse caldeirão transborde. Charlottesville hoje lembrou Berlim nos anos 1930 – de um jeito assustadoramente semelhante e perigoso.

Além disso, o estopim do protesto também nos ensina que símbolos e nomes importam: quando nós dizemos que o Minhocão não vai mais se chamar Costa e Silva, que a estátua gigante de Borba Gato é uma violência diária contra os nativos brasileiros, ou que um restaurante chamado Senzala é repugnante, afirmamos que estes são símbolos de um passado que não deve ser esquecido, para que não se repita, mas que deve ser veementemente condenado.

Por fim, a recusa de Donald Trump em simplesmente condenar uma passeada Nazi, apelando a uma generalização incorreta, perigosa e canalha, é um sinal extremo de alerta acerca dos líderes que comandam o mundo. Não é possível que reste dúvida:

não se pormenoriza, não se tolera, não se aceita racismo, nazismo, fascismo.

Quando um nazista toma a rua para marchar e exibir sua suástica, a única reação possível é manter-se de pé em sua frente e resistir, tal como o povo de Charlottesville bravamente fez hoje.

Guilherme Braga Alves


REFERÊNCIAS

1: https://oglobo.globo.com/…/autor-de-massacre-em-igreja-negr…

2: http://g1.globo.com/…/igreja-do-mississippi-e-queimada-e-pi…

3. https://www.theguardian.com/…/virginia-unite-the-right-rall…

4. https://www.theguardian.com/…/charlottesville-protest-trump…

5. https://www.nytimes.com/…/charlottesville-protest-white-nat…

6. https://www.washingtonpost.com/…/155fb636-7f13-11e7-83c7-5b…

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