“Se a classe operária tudo produz, a ela tudo pertence”, esta frase não é de Marx, mas sim de Ferdinand Lassalle

Há um argumento absurdo sendo repassado por aí, concernente à frase “se a classe trabalhadora tudo produz, a ela tudo pertence”. A “ideia” por trás deste argumento é de que, por exemplo, se um pedreiro constrói uma casa, ou se um pipoqueiro faz, ahn… a pipoca, estes produtos são e serão eterna e necessariamente deles, por terem sido produzidos pelos mesmos.

Este argumento não tem nem uma razão de ser. Ele não tem o fundamento! Ele surge de uma interpretação semântica básica; isto é, se eu tenho um termo ou uma frase isolada do seu contexto original – do corpo filosófico que ela compõe –, eu estou “apto” a lê-la ou sob a luz do meu pensar ideológico, ou no sentido mais fundamental de cada palavra, sem lhes dar nenhum tipo de conotação maior.

Ora, se eu construo uma casa através do meu esforço físico e mental, a casa é com certeza minha: ela é o reflexo e a extensão do meu espírito aplicado sobre a matéria, transformando-a pelo exercício do trabalho. A casa é minha e ponto. Isto, é importante salientar, diz respeito a uma parte de todo processo produtivo: a produção em si de um ou mais objetos.

A pergunta que devemos fazer, então, não diz respeito a quem é o proprietário deste objeto, a casa, mas, sim, se eu, o proprietário, quererei preservá-la como minha ou se desejarei dá-la ou trocá-la por algo. Isto diz respeito a um outro momento do processo produtivo: um momento que não nega o anterior, mas o leva adiante.

Mais especificamente, se a sua mãe lhe faz um bolo de aniversário, isto não significa que deixe de ser dela simplesmente porque ela lho deu; o gênio dela permanecerá impregnado no bolo, mesmo que este esteja agora no seu prato, no seu garfo e na sua boca. Você vem a ser como que contemplado pelo trabalho dela, mas não se torna a raiz do produto em si; você torna-se meramente o dono. A propriedade enquanto criação será sempre dela. Isto significa que a minha casa, por exemplo, é realmente dos pedreiros que a construíram: é deles na criação e minha no usufruir.

O erro deste argumento está em pensar todo o processo produtivo como um único momento fixo e completamente desvinculado de relações sociais. Se o pedreiro constrói uma casa, ele está completamente apto a aliená-la¹ de si em favor de outra coisa. Isto não elemina a presença do espírito dele do produto, mas sim o interesse sobre o último.

Agora, levando-se em conta que desconheçam algo tão simples e ainda assim essencial, é fácil imaginar o quanto saberão das coisas complexas.

Não é à toa o apego à tautologia.


1 – Alienação não é por si só algo ruim: o que permite a troca de produtos é o desejo mútuo dos proprietários de aliená-los de si.

14 comentários sobre ““Se a classe operária tudo produz, a ela tudo pertence”, esta frase não é de Marx, mas sim de Ferdinand Lassalle

  1. Simplório.
    Incapaz de isenção cultural e histórica.
    Postula como natural a posse do poder de produção como detentor de mais valia.
    A clássica inversão de valorizar a coisa e menosprezar o labor com fins de torná-lo mais barato e baratear a coisa a ser vendida pro próprio operário. Pútrida agiotagem de gente.
    História, filosofia e antropologia exigem muito mais a serem compreendidos.
    Nem só de internet se faz um filósofo.
    Só Olavete, isso se faz no banheiro.

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  2. Bom, eu sempre parti do pensamento de que se a classe operária não tem envolvimento nenhum com os recursos necessários para chegar ao ponto de partida da produção (o que geralmente acontece), a essa mesma classe não interessa nenhum atributo ligado à propriedade, já que o que está muitas vezes em questão é somente a troca do capital pela força de trabalho (ou seja, algo intangível, logo imaterial) por logicamente não existir realização de projeto e necessidade de força de trabalho sem antes se terem os recursos cabíveis, os quais quem vão ceder são os respectivos patrões.

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    1. Aconselho-te a pensar nessa questão dois ou três passos atrás. De uma forma mais ampla e isenta e menos nos nossos moldes atuais e históricos

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  3. Aiai… se o operário tudo produz, a ela tudo pertence = se o pedreiro produz uma casa é legítimo que ele tenha uma casa para morar… tenha um computador… tenha um celular… é legitimação que ele faça uso desses bens… seu salário deve garantir-lhe esses bens caso contrário é exploração.

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  4. Não dá pra analisar esta frase ao pé da letra. O que se pretende expor é que se o POVO tudo produz (e é verdade!), o povo deveria ter ACESSO a tudo. Se aceitarmos este pensamento (do povo ter acesso a tudo ou ao menos a MUITO MAIS do que tem), ele nos remete, incondicionalmente, à algumas conclusões de difícil aceitação por parte de quem ainda não consegue enxergar que o bem estar social (geral) é o melhor caminho pra humanidade. Ainda somos muito egoístas e preconceituosos (de um modo geral), pra aceitar que um negro, um pobre ou alguém com menos instrução, viva feliz, tenha acesso a produtos e serviços que só quem tem dinheiro pode. Chegará o dia em que viveremos assim. A evolução independe de nossa vontade ou defeitos. Saúde a todos!

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  5. Está errada a sua afirmação, no momento em que o autor da frase diz “A ele TUDO pertence” , ele está se referindo a TUDO. Foi o pedreiro quem fez os tijolos? Foi o pedreiro quem fabricou as telhas? as louças? o cimento? a areia? Foi o pedreiro quem pagou pelo material ? NÃO ! Então, somente o SERVIÇO PRESTADO e DEVIDAMENTE PAGO que pertence ao pedreiro. Se chega alguém na casa nova e pensa: Que serviço mal feito, quem fez isto? A culpa pertence ao pedreiro. Que belo acabamento quem fez? Os louros pertencem ao pedreiro. APENAS ISSO, NÃO TUDO

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  6. Penso da seguinte forma, principalmente se levarmos em conta a contextualização aplicada. Se uma determina classe produz tudo, tudo a essa classe pertence. Não vamos desprezar aqui a coletividade em prol do individualismo. Se a classe trabalhadora produziu um produto, então a classe trabalhadora pode ter e consumir aquele produto, sem que uma outra classe venha e se aproprie, dizendo que essa determina classe que produziu não pode fazer isso, por estar ferindo seus ideais.
    Em resumo: No Comunismo há itens, há produtos, há objetos, e esses pertencem a classe – aqui vista como sociedade – que a produziu. Sendo assim, uma Casa foi criação do homem, e o homem pode usufruir dessa criação, não é exclusividade de uma classe dominante.

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