A ligação do liberalismo à perversidade

Ao que nos concerne, em diferentes meios teóricos, principalmente nas linhas marxistas-leninistas, não existe costume na separação entre liberalismo clássico neoliberalismo, dada a manutenção dentro do chamado “neoliberalismo” das características evidenciadas pelo estudo marxista do capitalismo liberal.

Porém, dentro de um olhar de ênfase psicológica para dentro do liberalismo, pensando na relação entre indivíduos e mercadorias, ou seja, uma relação dialética entre condições objetivas (a materialidade desse tipo de distribuição dos produtos) e condições subjetivas, o neoliberalismo traz uma diferença não ignorável em relação ao seu antecessor: uma nova forma de pensar a mercadoria que começou a surgir nos anos 40 e que foi responsável por fornecer os horizontes para as análises econômicas dos ditos neoliberais.

Mesmo portadora de uma diferença, não consideramos a possibilidade de constituir uma separação entre os dois liberalismos, uma vez que o germe dessa outra forma de relação com os produtos já estava colocado desde o nascimento da indústria cultural.

De qual diferença falamos aqui exatamente? De uma nova forma de pensar os destinos dos produtos. Sob a égide do liberalismo, havia uma produção focada na satisfação das massas, com produtos voltados para usos cotidianos, satisfazendo problemas cotidianos gerais da sociedade, além de caprichos gerais das classes dominantes: eletrodomésticos, ferramentas, roupas mais específicas, produtos de higiene, produtos para construções etc. Em contraponto, o liberalismo pós 30 trata de dar um enfoque cada vez mais particularizante às características dos produtos, tornando-os cada vez mais específicos para demandas cada vez mais particulares. Lembremos que é a partir dos anos 50, interessantemente, que há um surgimento mais acirrado das tribos sociais e, já nos anos 70, poderíamos observar uma explosão de tribos sociais ainda maior.

O liberal Geoffrey de Lagasnerie coloca o “neoliberalismo” – ele é um dos que acreditam neste termo – como uma “meditação sobre a multiplicidade” (2013, p. 60-61), defendendo a forma-mercado como instigadora da construção da diferença, dada a sua capacidade de integração da multiplicidade à vida social. Para isso, foi necessário que ele olhasse para a capacidade da forma-mercado de tornar a diferença lucrativa, de integrar a diferença através da mercadização das “identidades” (sic) excluídas. É plenamente observável aqui, camaradas, a semelhança entre essa argumentação pautada na ideia de política das diferenças e o discurso que vem sendo proferido por partidos como o PSL, o Partido Social Liberal, e outras organizações que tentam discutir a integração de minorias através do mercado.

O neoliberalismo, enquanto discurso, fala a respeito de uma universalização da vida através da economização do mundo; acredita existir nela a melhor forma de se integrar a diferença sob um pilar que acreditam não ser mais dependente da moral. O Estado Clássico, segundo Lagasnerie e Friedrich Hayek, é falido porque é incapaz, em sua centralidade iminente, de integrar a diversidade dentro de si. (Lagasnerie, p. 60-61).

Mas ao que nos concerne, esse tipo de mercadização da diferença tem semelhanças com o fenômeno psíquico do fetichismo – a manutenção da relação predominantemente infantil de relacionar-se com as partes do todo -, marcando consequentemente a chamada perversão:

“[O imperativo contemporâneo] faz operar um gozo que não cessa de se inscrever com a promessa de que ele é alcançável pelo consumo de produtos ofertados e fetichizados pela propaganda. De certo modo, estimula que continuemos a funcionar nos moldes da criança perverso polimorfo, no mundo dos pequenos objetos. Nesse funcionamento a perversão é perfeitamente comum, pois o mecanismo da Verleugnung [recusa] permite que a criança enfrente a descoberta da castração. Dominada pelo narcisismo a criança recusa e desmente qualquer realidade que se oponha ao seu desejo onipotente, e assim ela não se deixa proibir.” (Queiroz, 2014, on-line)

A particularização encabeçada pelo avanço do discurso liberal e pelas novas mudanças na forma de se pensar a produção está diretamente ligada com uma nova forma de organização do aparato psíquico repressivo, o superego. Enquanto o superego vitoriano se tratava de uma instância reguladora dos desejos de acordo com as regras da civilização, o superego contemporâneo à Lacan, em 1960, aparecia de forma já diferente: como uma instância que condenava o sujeito, tal como um imperativo, a aproveitar o que lhe era ofertado pelo campo da cultura. O superego havia se tornado uma instância que forçava o sujeito à culpa pela impossibilidade de aproveitar tudo, demonstrando a não aceitação do sujeito pós-moderno à castração. Divertidamente, podemos lembrar aqui do mote de 68, na canção de Caetano Veloso, “é proibido proibir”, filha do Maio de 68. O contraponto do gozo como imposição é seu total contrário: a impossibilidade de se satisfazer com a realização dos desejos.

Diríamos com Slavoj Zizek, que o maior problema clínico da atualidade não é mais o sujeito que vai em busca de terapia por não conseguir realizar um desejo, mas o sujeito que busca terapia por realizar todos os seus desejos e não conseguir nenhuma satisfação com eles.

O caso Borderline: 

A respeito do Transtorno de Personalidade Borderline, uma categoria das perversões e talvez um dos diagnósticos mais comuns na atualidade, é notável perceber seus primeiros surgimentos dentro do contexto dos Estados Unidos da América nos anos 40. Stern foi o primeiro psiquiatra a tentar construir um método de tratamento para essa estrutura da personalidade que fugia de qualquer classificação existente na época em meados de 1945.

Eric Laurent, delegado da Associação Mundial de Psicanálise, faz a mais interessante descrição sobre os porquês do borderline ter surgido, primeiro, nos EUA:

“Entre o individualismo democrático (americano), o nominalismo da civilização e o narcisismo das pequenas diferenças, há um nó especial, cultural, que faz que, num certo sentido, o borderline seja uma especialidade americana. Os americanos acreditam nela muito mais do que os psiquiatras europeus, latinos ou os psiquiatras japoneses, que, ao contrário, têm de se haver com as tradições classificatórias, têm de se haver com fenômenos difíceis e que não alternam tanto. Há que se praticar o borderline nos Estados Unidos, pois não apenas o encontramos como não se pode viver no sistema sem ser borderline. Digamos que seja uma adaptação normal.” (2000, p.162)

Matheus Cornely

[1] O termo perversão não é uma categoria moral; trata-se, na verdade, de de uma categoria clínica.

Referências:

LAURENT, Éric. “Há algo de novo nas psicoses”, Curinga no. 14, abr. 2000, p.162.

STERN, A . “Psychoanalytic therapy in the borderline nevroses”, Psycchoanalytic Quaterly, 14: 190-198, 1945.

RUDGE, Ana Maria. Versões do supereu e perversão. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-79721999000300011

LAGASNERIE, G de, 2013. A última lição de Foucault. São Paulo, Três Estrelas, 2013.

HAYEK, F. A. (1942) “Scientism and the Study of Society”. In: Economica, agosto.

CERVELLATI, Carmen Silva. O Borderline: a psiquiatria e a psicanálise. Disponível emhttp://clipp.org.br/biblioteca-artigos_41.php

QUEIROZ, E. F. de, 2014. O discurso perverso. Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, 17(3-Suppl.), 593-603. Disponível emhttp://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-47142014000600593#aff1.

ZIZEK, S, 2010. Como ler Lacan. Rio de Janeiro, Zahar.

MRECH, L M e RAHME, M, 2010-2011. Sujeito dividido, proliferação de objetos e desinserção social: os laços sociais e o discurso capitalista na cultura contemporânea. Revista aSEPHallus, V. 5, Nº 11. Disponível em: http://www.isepol.com/asephallus/numero_11/artigo_05_revista11.html. Acesso em 02/11/2016.

LACAN, J, 1998. Seminário, livro 7 – a ética da psicanálise. Rio de Janeiro, Zahar, 1998.

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