Comentários sobre “Amor & Sexo” (por Lucas Baako)

Quando alguém diz que é importante que a Globo transmita uma mensagem porque isso conscientiza a população, ela está partindo do pressuposto liberal de que os problemas sociais são fruto de falta de consciência e formação nas pessoas, e resolvendo isso (leia-se “descontruindo” geral) resolvem-se, com efeito, os problemas que nos afligem.

Existe uma penca de equívocos nesse pensamento, entre os quais destaco apenas três:

1) as nossas relações sociais são frutos das >condições materiais< da sociedade. O que isso significa? Que enquanto os negros estiverem majoritariamente presentes nas favelas e presídios, o racismo manifesto em forma de discurso continuará existindo, porque o racismo enquanto fundamento social existe. Significa que enquanto a divisão do trabalho não for recalculada, mulheres seguirão acumulando as funções de trabalho + trabalho doméstico, fazendo com que o machismo manifesto em “lugar de mulher é na cozinha” siga também existindo. E por aí vai.

Isso é tão verdade que chegamos a um outro problema;

2) existe por acaso menos racismo na esquerda, ou menos machismo? Não são justamente os movimentos mais liberais que gritam “esquerda branca” e “esquerdomacho”, etc? Então por que acreditam que desconstruir geral vai resultar em algo positivo? Quem garantiu isso? Ou melhor: vai ficar melhor pra quem, afinal? Pra mulher da favela ou pra mulher burguesa; pro negro burguês ou pro negro encarcerado injustamente?

E O MAIS IMPORTANTE:

3) é comitrâgico que vocês pensem que a Globo manifesta esses programas porque nós “lutamos muito” pra que isso acontecesse, que a Globo a contragosto está obrigada a passar isso porque foi “pressionada” a tal.

A verdade é que a Globo segue a linha “Hillary” de “neoliberalismo socialmente responsável” e não é de hoje, a efervescência de discussões de esquerda no canal é fruto de uma nova linha ideológica que visa apreender o que está na esquerda JUSTAMENTE pra minar a discussão mais profunda que acarreta, via de regra, num esforço revolucionário.

Ou seja: a Globo possui uma agenda política que prioriza a disseminação do tipo de pensamento “liberal humanitário” e sorri largamente quando vê as esquerdas a apoiando.

Então não é a Globo que está forçada a transmitir essas coisas. Vocês é que estão se alinhando com ela.

E isso não é só sobre o programa da Fernanda Lima. É sobre o todo, mesmo.

Lucas Baako

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