“Emponderamento é uma mera ilusão”, por Yuri Saiyé

Aqui vai minha opinião. Não to ligando pra caso você se ofenda com ela. O “Empoderamento” das minorias é uma ilusão. Empoderar-se é reafirmar a construção de uma identidade. Legitimar uma identidade. É uma escolha. E o ato de tornar-se O Baluarte de uma escolha.

Parece maravilhoso. Salva você de sua baixa auto-estima, de seu complexo de inferioridade, dos padrões sociais impostos. Do auto-ódio. “O Movimento me salvou, você diz”. E celebra-se a identidade do Gay, da Lésbica, do Candomblecista, dos diferentes movimentos negros, de toda a forma de Feminismo. Sim, não cabe a mim negar: Empoderar-se salva as vidas de pessoas que não tem às vezes o simples direito de dizer quem são.

Mas quanto tempo você tem pra viver? E quão alto você pode dizer quem você é?

Você, negro, pega seu turbante, o enrola na cabeça, cresce seu black, canta seu Rap, dança teu samba, teu Funk… no domingo. O único dia que você tem livre a semana. Por que de segunda à sábado é dia de você derramar cada gota de suor pelos dois mil reais que você ganha de vendedor na loja X do Shopping Y. Mais de 2 Salários. Ganha mais até do que professor e enfermeiro. Pode comemorar. Ao menos você tem emprego. Mas a faculdade está lá trancada. Você paga 680 pra morar sozinho. Mais 150 de luz. Mais as parcelas do cartão. E IPVA. Mais o ingresso da festa black. E mais… e mais… mais uma infinidade de fatores que te deixam todo o mês devendo no Xeque especial.

Você, mulher, problematiza seus amigos na mesa do bar. Denuncia os abusos dos namorados sobre as namoradas. Polemiza com essa, aquela, e aquela outra vertente. Pensa isso e aquilo sobre o Transativismo. E gasta quatro horas por dia no transporte público para trabalhar e alimentar sua filha. Trabalha de secretária para outra mulher. Que nunca, literalmente, ouviu ou pronunciou a palavra sororidade. E não tem nenhuma na hora de tratar sobre horários, aumento, escolha das férias, etc. Você não permite que o sistema controle seu corpo, claro. Você o veste como quiser, o despe pra quem você quiser, Homem, mulher, trans. Você escolhe x parceirx que quiser. Mas vai sair com a pessoa com qual dinheiro? Com qual tempo? Se vai, dormirão juntos? Onde? Motel é caro. Em casa? Quarto único com uma criança. Quem fica com sua filha?

Eu vejo a diferença de “quem é mais empoderado” entre um homossexual negro, suburbano, adolescente, de família evangélica, trabalhando de telemarketing para cursar ADM em uma universidade particular; e um homossexual branco, militante ativo, candidato encaminhado a um mestrado de letras em uma universidade pública. Quem se defenderá melhor de um assédio moral? Quem poderá contratar advogados em caso de algum incidente grave? Quem aceita melhor a homossexualidade? Uma família de semi-analfabetos religiosos fundamentalistas vinda do semiárido nordestino, ou um casal de intelectuais progressistas, letrados e acadêmicos, vindos do sul? Qual família tende a ser mais tolerante?

Se você não entendeu o exemplo, acho que posso dizer mais claramente: nossa retórica de empoderamento fala de Escolha. Escolher reafirmar nossa voz de nossas identidades, de nossas escolhas. Mas o capitalismo ARRANCA suas escolhas. Brutaliza você. Arranca o tempo que você tem para refletir sobre quem é e como vive. Molda seus desejos. Dobra sua vontade.

Nossa atual geração “empoderada” vive de colecionar memes, textos rasos de blogs rasos, peças de roupa, ingressos para festas igualmente “livres e empoderadas”. Enquanto você canta o samba com um turbante na cabeça e a cara cheia de purpurina, seu patrão ganhou vinte mil reais com suas vendas, e te pagou 5% disso. Você coleciona nudes dos contatinhos no celular. Ele coleciona propriedades, luxos, recursos, e sobram a ele os zeros que te faltam na conta bancária.

Nós, “empoderados”, dizemos todos os dias que nos libertamos ou nos libertaremos da escravidão colonial, do machismo, da homofobia, do conservadorismo, que quebramos os tabus, que queimamos a babilônia. E continuamos a servir docilmente ao sistema. Por que não temos escolha.

E agora, eu vejo essa esquerda millenial. Uma esquerda que repete no brasil os erros que as esquerdas dos EUA, da Europa, do Canadá fizeram: “Somos belos, recatados e do bar”. “Somos livres”. “Somos empoderados”. Somos assalariados morando em bairros sem asfalto, ganhando o piso da profissão, pegando ônibus que fazem 10 Km a 5 reais em duas horas, sem arcondicionado, indo em pé, toda a porra do dia.

Nós comemoramos uma liberdade que acaba junto com o nosso salário. Todos os meses.

E é fácil “Desconstruir” seu pai, sua mãe, a pessoa com quem tu namora. Difícil é desconstruir a ortodoxia econômica do Banco Central. A única forma possível de libertar-se por completo no capitalismo, é destruí-lo. E seu Empoderamento é uma ótima distração pra quem quer mantê-lo de pé.

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