A Modernidade está te matando aos poucos. Saiba como (Blog Voyager)

Já no fim do século 19 o sociólogo David Émile Durkheim dizia que o mundo moderno era um mundo em anomia, um mundo onde as dimensões sociais estariam tão instáveis que as pessoas começariam a sentir um mal-estar, o qual, em grandes proporções, poderia causar um colapso social.

Arte de Tetsuya Ishida

Mais de um século depois, já no século XXI, ainda hoje vivemos essa condição de grande instabilidade social e emocional. Surtos de depressão, ansiedade e estresse fora do comum não podem ser tratados como problemas ou doenças convencionais. Trata-se na verdade de problemas psicológicos em massa, que são um fenômeno da nossa modernidadeavançada (ou pós-modernidade como diria alguns autores), e estão ligadas com o avanço do capitalismo no meio social em que vivemos.

COMO O FUNCIONAMENTO SOCIAL INFLUI DIRETAMENTE NA SUA VIDA

Numa época de crescente cultura do individualismo, as pessoas acreditam que são totalmente independentes da sociedade. Sua origem é antiga, tendo como ponto inicial o avanço do liberalismo na Europa durante a época do movimento iluminista, e, após a Revolução Francesa, conseguiu ir além das fronteiras europeias para se tornar uma crença hegemônica no mundo todo, consolidando-se vitoriosa com o processo de “globalização”.

Em contrapartida, em 1897, foi publicado o livro “O Suicídio”, de Durkheim, que era um estudo de caso mostrando como o meio social pode influir diretamente em nossas vidas. Nele é demonstrado, com base em estudos empíricos, que o ato de suicídio, o qual é considerado por muitos como um ato extremamente pessoal e individual, na verdade trata-se de um fenômeno social.

Ao longo da obra, Durkheim mostra como as taxas de suicídio variam entre grupos sociais distintos, assim como o suicídio pode ter causas distintas. Com base na distinção social das causas, ele elabora 4 categorias de suicídios que possuem relação direta com o meio e o ser social:

Suicídio Egoísta

Ligado diretamente ao isolamento social. A pessoa se sente marginalizada socialmente e perde o interesse pela vida em sociedade. Os laços sociais são tão fracos que o indivíduo perde o senso de pertencimento, sendo assim impelido a tirar sua própria vida.

Um exemplo são suicídios por fim de relacionamento.

Suicídio Altruísta

O completo oposto do egoísta. Ocorre quando a pessoa põe os valores sociais acima da própria individualidade. Os laços com o coletivo são tão fortes a ponto do indivíduo aceitar se sacrificar pelos ideias da sua sociedade.

Esse tipo de suicídio pode ser observado em ações feitas por terroristas, como homens-bombas ou no ato “heroico” dos camicazes.

Suicídio Fatalista

As normas sociais são extremamente rígidas, reprimindo e levando a pessoa ao desespero. Daí vem a noção de fatalidade: embora a pessoa esteja com os laços sociais fortes, ela não se sente confortável, o que a leva a cometer suicídio.

Na nossa sociedade contemporânea esse tipo de suicídio é muito comum em pessoas que sofrem preconceitos.

• Suicídio Anômico

Quando uma sociedade está em colapso como um todo, as regras e normas sociais são confusas, não há objetivo, não há identidade. A pessoa, sem saber o que fazer, é levada a se suicidar.

Comum em grandes períodos de depressão econômica ou na perda de identidade cultural.

Essas categorias podem ser expandidas para outros fenômenos sociais, que causam mal-estar na atualidade, como a grande taxa de criminalidade, depressão, estresse e ansiedade.

A ESTRUTURA CAPITALISTA CAUSA FATALISMO SOCIAL

Como vimos acima, a forma como a pessoa está relacionada com a sociedade pode influir o rumo da sua vida. Os principais problemas psicológicos da modernidade estão ligados com a Anomia Social e com o Fatalismo Social. O primeiro ocorre quando a sociedade está com um funcionamento que levam a fenômenos sociais a um nível fora do normal, a segunda quando ocorrem uma padronização e uma forte disciplina social, fazendo com que as pessoas se sintam reprimidas, causando problemas psicológicos.

O capitalismo é um sistema que exige uma padronização social intensa, literalmente transforma a sociedade humana em uma sociedade de abelhas: as pessoas precisam trabalhar em uma cadeia produtiva extremamente hierárquica e fechada. Todo ato e trabalho humanos nas sociedades capitalistas  é realizado para manter esse sistema, seja o que nós assistimos, seja o que nós estudamos, seja como nós nos relacionamos, seja como compramos…

Tal padronização e tal disciplina não poupam nada, nem ninguém. As crianças já são iniciadas em uma cultura de trabalho desde cedo. A escola é pensada para ser uma estrutura hierárquica e extremamente padronizada – não há espaço para criatividade. As séries, os filmes, as novelas, em suma, todo o entretenimento também é feito nos moldes do sistema.

Cena da ópera rock The Wall, do grupo britânico Pink Floyd.

Dessa forma o capitalismo acaba se tornando um sistema contraditório, pois ao mesmo tempo que depende de um sistema social completamente padronizado e coercivo, ele prega a cultura da individualidade, que o isenta dos fenômenos em massa que ele mesmo causa. Se a pessoa crê que ela é um ser independente da sociedade, então os problemas que lhe causa sofrimento não podem ser responsabilizados pelo sistema social que ela vive.

Aokigahara, a floresta do suicídio, no Japão.

Aqui entra o Fatalismo Social. Desde que o momento que nascemos somos moldados para seguir um padrão constante que não pode ser rompido (caso seja, o capitalismo também será). As pessoas são bombardeadas de responsabilidades para poderem sobreviver no meio social, o que, naturalmente, elas não conseguem suportar sozinhas. Temendo que essa impotência seja interpretada como fraqueza ou “incompetência” para se ajustar numa sociedade padronizada pela lógica do capital, essas pessoas se culpabilizam e acabam desenvolvendo problemas psicossomáticos. As pessoas que conseguem se “ajustar” no sistema não deixam de ser potenciais vítimas também, já que o trabalho desgastante durante horas por dia gera o estresse, que é um dos maiores problemas da atualidade. O Brasil, por exemplo, é o segundo país com maior nível de estresse no mundo.

A crença na individualidade faz com que as pessoas se culpem quando não conseguem ou mesmo estão com dificuldades de se ajustar a essa rotina padronizada. As pessoas lutam com todas suas as forças, sonhando que um dia conseguirão sair dessa situação marginal. Essa luta diária, junto com o estresse, gera a ansiedade. As perturbações que boa parte das pessoas vivenciam diariamente, como preocupações excessivas, problemas com o sono e síndrome do pânico, são alguns dos sintomas.

A depressão entra quando a pessoa percebe que ela não vai conseguir mudar os padrões, então ela é obrigada a viver naquele sistema sem ter perspectiva alguma, como uma abelha sem consciência.

Suicídio é de longe um dos problemas que o estresse, a ansiedade e a depressão podem levar. No Japão inclusive existe um fenômeno social que atinge grandes proporções todos os anos, que é a morte por excesso de trabalho, o Karoshi. A pessoa morre por derrame ou problemas cardíacos, os quais, coincidentemente (?), também são dois problemas que estão em alta nas últimas décadas. Matam mais que o câncer. O acúmulo de problemas psicológicos ao longo dos anos podem levar as pessoas a acumularem outros problemas fisiológicos, estão totalmente correlacionados.

Morte por excesso de trabalho ou Karoshi.

Esse mal-estar social, cuja consequência extrema é o ato de suicídio, acontece porque os seres humanos não são seres lineares, são seres que possuem consciência e precisam de um meio social onde seja permitido a sua transformação ao longo da vida. O homem é um animal que vive em constante mudança. Em contrapartida, o capitalismo é um sistema que não pode suportar mudanças, pois a mínima oscilação que ele sofre pode romper com os padrões que o mantém, fazendo todo o sistema quebrar, numa reação em cadeia. Essa crise na estrutura do sistema leva ao processo de Anomia Social.

AS CRISES CÍCLICAS DO CAPITALISMO E A ANOMIA

Ocapitalismo é um sistema extremamente instável. Tal característica pode ser verificada ao longo da história, são crises em grande escala que provocaram fortes abalos sociais, como a crise de superprodução de 1929, a crise do petróleo de 1973, a crise dos Tigres Asiáticos de 1997, e a mais recente delas, a crise financeira (subprime)de 2008. Embora nós sempre lembramos desses grandes eventos quando falamos de crise, não podemos esquecer que ela também pode designar problemas em menor escala. Crise é quando existe um mal funcionamento econômico e social em um país, portanto, não é preciso ir muito longe para ter algum exemplo. Caso do  Brasil e da Argentina, que são países, entre muitos outros, em crise nesse instante.

As crises no capitalismo não são crises reais, e sim crises abstratas. Embora todo aparato material esteja intacto, um problema abstrato cria a crise, impedindo o funcionamento do sistema. Numa crise capitalista, as máquinas continuam funcionando, a matéria-prima ainda é abundante, todos os meios econômicos estão estáveis, contudo, mesmo assim, o sistema não anda, pois o problema não é de falta de recursos. O capitalismo permite que uma simples inconsistência em um número abstrato bancário, gere como efeito o surgimento de milhões de pessoas desempregadas, mesmo que os recursos materiais não tenham sido modificados. Por isso é um sistema extremamente frágil e oscilante.

Durante as crises abstratas do capitalismo, certas regras e normas sociais impostas por ele ficam ambíguas e sem sentido, como a norma de ter um emprego para sobreviver. Na crise, os empregos ficam escassos, a norma fica sem sentido objetivo, a pessoa precisa de um emprego que não existe. Essa confusão vai ser uma das bases para problemas psicossomáticos que alteram a saúde mental e física das pessoas.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Osistema capitalista é um sistema naturalmente feito para potencializar os problemas psicossomáticos, e os normatiza com a cultura individualista. A geração atual precisa viver a base de remédios para  conseguir enfrentar problemas que poderiam simplesmente ser evitados, caso a vida em sociedade fosse mais favorável para o seu desenvolvimento social.

Não devemos achar que é normal sofrer de estresse e ansiedade a maior parte do tempo, muito menos achar que é um problema exclusivo do indivíduo. Como já conferimos, esses problemas alteram o fisiológico ao longo dos anos, podendo levar a morte. Num sistema tão perturbador, quanto mais ficarmos cientes dessa situação, melhor poderemos nos prevenir e saberemos como pedir ajuda quando necessário.

Em tempo: a ilustração de capa deste artigo é do artista japonês Tetsuya Ishida, que cometeu suicídio em 2005…

Voyager


Fontes:

• Depressão, o mal do século: Que século?
• Fatos Sociais e Solidariedade
• O Suicídio (PDF)
• 
Karoshi – Morte por excesso de trabalho (PDF)
• 
Distúrbios psicossomáticos
• Doenças do coração matam mais do que câncer e violência

Um comentário sobre “A Modernidade está te matando aos poucos. Saiba como (Blog Voyager)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s