Em defesa de Ciro Gomes: uma resposta ao Spotniks

Projetando-se como candidato à presidência em 2018, Ciro Gomes ganha cada vez mais detratores, como o Spotniks (site de direita parônimo ao site russo “Sputnik”). Pelo jogo democrático, conheça o outro lado da história.

Em meio ao turbulento processo de impeachment que afastou do cargo a presidenta Dilma Rousseff e desestabilizou toda a institucionalidade do país, ressurgiu na cena nacional a figura do ex-Governador do estado do Ceará, Ciro Gomes, experiente partícipe da alta política brasileira, denunciando o que muitos entendem como um golpe de Estado em marcha.

Lançando mão de afirmações contundentes, particularmente contra as figuras de Michel Temer e Eduardo Cunha, Ciro se projeta como potencial candidato da ala progressista à Presidência da República em 2018, e como não poderia deixar de ser, já se iniciam os ataques advindos do setor supostamente (neo)liberal e renovador da política que está, cômica e frequentemente, alinhado ao que há de mais conservador no país.

Nesse contexto, autores do portal Spotniks, com o legítimo intuito de contrapor colocações que acreditam ser incorretas – bobagens, segundo os próprios -, elencaram em texto algumas declarações de Ciro Gomes.

Ironicamente, os mesmos autores recorrem, ao longo de todo o corpo do texto, ao uso de “erros factuais (mentiras), distorções ou omissões de fatos importantes”, práticas que acusam Ciro de cultivar.

Por conta da grave situação econômica pela qual passa o país, que prejudica a renda dos cidadãos, ou por outra razão qualquer, parece não haver entre os bens dos autores um precioso objeto chamado espelho, de tal modo que uma resposta se faz necessária.

Inicia-se o texto com a afirmação de que Ciro Gomes já xingou e elogiou todo o conjunto dos políticos brasileiros. Ignoradas a hipérbole e a descontextualização das críticas e elogios por ele feitos ao longo do tempo, cabe dizer apenas que não há nisso qualquer estranheza, uma vez que a política é mesmo o espaço dos dissensos e admite, por princípio democrático, que quaisquer representantes institucionais se posicionem do modo (e no tempo!) que entendam ser o correto.

Assim, possuir convergências e divergências com uma mesma pessoa não é senão uma demonstração de criticidade e sensatez.

Por este mesmo princípio democrático, o trânsito entre partidos é também legítimo.

Vale ressaltar, entretanto, que qualquer observador que se proponha a analisar crítica, honesta e atentamente – não é, definitivamente, o caso do Spotniks – o discurso de Ciro ao longo dos anos constatará que suas posições pouco se alteraram, ao ponto de suas manifestações serem frequentemente repetitivas ao largo de mais de vinte anos de razoável projeção na vida pública.

Tal fato atesta, portanto, a solidez das posições defendidas pelo político e sugere que elas não são meras bobagens, como afirmaram os autores em tom de sabedoria irrestrita, uma vez que estas velhas posições continuam a angariar o apoio de figuras e setores importantes do país, dentre os quais parte da juventude. Quem sabe tal política não seja assim tão velha, não é mesmo?

Após isso, insinua-se que Ciro propunha como solução, à época do ajuste fiscal levado a cabo em favor do Plano Real, em 1994, “a privatização” (dito assim, como se fora uma opinião geral e irrestrita).

Como é sabido por todos – ou quase -, Ciro defende um projeto de coordenação estratégica entre Estado e iniciativa privada, do que segue que não há, por parte dele, qualquer demonização apriorística desta última ou do próprio ato de privatizar.

Apenas não se pode cair na armadilha dogmática de afirmar que privatizações são sempre positivas, a julgar pelo desastre daquelas feitas na gestão de Fernando Henrique Cardoso, com vendas abaixo do preço de mercado e sem subsequente aumento na qualidade do serviço, além do efeito medíocre na redução do endividamento público. Isto posto, fica claro que não houve mudanças oportunistas de discurso, diferente da impressão que se quis construir.

Em seguida, os autores lançam mão de uma mal fundamentada e já desgastada acusação: Ciro Gomes é um coronel! “Sua família elege políticos há mais de um século e todas as principais características dos coronéis estão em Ciro, inclusive o estilo de fala”, alega o portal.

Conceituemos brevemente, então, a figura histórica do coronel:

“O coronel é um mandão, figura que encarna, na tradição política de sua família, as características do patrimonialismo, isto é, confunde-se a coisa pública com a coisa privada: ele faz a Lei e representa, em si mesmo, um território específico. Geralmente dono de grandes propriedades, meios de comunicação e/ou indústrias, tudo funciona em torno do coronel. Pesam sobre ele, usualmente, acusações de assassinato, de compra de votos e de autoritarismo. São marcas da atuação do coronel o controle de nomeações e demissões no setor público, além de uma relação clientelística com os moradores de seus assim chamados currais“.

Ou seja, não há coronel sem grandes propriedades e sem controle dos diversos meios de produção do poder.

Ciro e seus irmãos possuem grande poder político, mas não são grandes proprietários ou coisa que o valha; a política por eles feita não foge à lógica do jogo democrático, das coalizões, das alianças, diferentemente daquela praticada pelos coronéis de fato, na qual as contradições são resolvidas através das armas.

Pregar em Ciro o rótulo de coronel é desconhecer a história e a política brasileiras, além de esvaziar o conceito de coronelismo, muito necessário para o entendimento do passado político do país.

Além disso, o site afirma que os Ferreira Gomes constituem uma oligarquia e que a família “elege políticos há mais de um século”; a quem possa interessar, seguem os períodos de atuação e os nomes dos políticos eleitos pela família ao longo do tempo:

De 1890 e 1892, respectivamente, Vicente Cesar Ferreira Gomes e José Ferreira Gomes ocupam a Prefeitura de Sobral. Após isso, a família só volta a ocupar o poder no período de 1935 a 1944, na figura de Vicente Antenor Ferreira Gomes, como Prefeito de Sobral. Em seguida, ficam fora do poder de 1944 até 1977, quando José Euclides Ferreira Gomes (pai de Ciro e defensor público, sem grandes propriedades e sem capital) assume a Prefeitura de Sobral, onde permanece até 1983. Após isso inicia-se a vida política dos Ferreira Gomes de nosso tempo.

Assim, o site ignora, convenientemente, dois longos períodos de desconexão entre a suposta oligarquia e o Estado, de 43 anos e 33 anos, respectivamente, para insinuar que a família está no poder “há mais de um século”.

Feitos os apontamentos acima, não é necessário dizer mais. Vamos às “bobagens”!

1 – Em defesa do espólio

Os autores ocupam-se, no primeiro tópico, de tentar refutar a proposição de Ciro de que a dívida pública brasileira é um mecanismo para manutenção de um pequeno grupo de rentistas.

Afirmam, para isso, que Ciro faz uso de um estudo do economista Márcio Pochmann, a quem atribuem a ideia de que a classe média brasileira começa a partir de uma renda de R$291,00 por pessoa, em uma tentativa vil de desqualificá-lo, tendo em vista a impopularidade da alegação.

Lamentavelmente, e para a tristeza daqueles a quem respondo, o dado não é produção de Pochmann, mas da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), chefiada à época por Wellington Moreira Franco, atual membro do governo interino de Michel Temer (a quem, a propósito, o Spotniks tem poupado em absoluto da acidez que generosamente direciona a Ciro Gomes e a Márcio Pochmann), com quem Pochmann não tinha relação direta naquela ocasião.

Ao contrário, Pochmann contesta, em seu livro “Nova classe média?“, a classificação feita pela SAE, argumentando que a ‘nova classe’ destacada não pode ser chamada de média, mas de trabalhadora apenas, uma vez que não há, segundo ele, politização da ascensão por parte dos emergentes, entre outras ponderações importantes.

Quanto à manchete propagada por Ciro, os autores têm razão: a informação correta, produzida pelo IPEA, é de que 20 mil “clãs familiares” (grupos compostos por 50 membros de uma mesma família) recebem 70% dos juros pagos aos detentores da dívida pública, em vez das “10 mil famílias” apontadas pelo político.

Isto é, cerca de um milhão de pessoas recebem 70% dos juros pagos aos proprietários de títulos públicos. Dado que havia no país, na data do estudo, uma população de cerca de 190 milhões de habitantes, o imenso montante é destinado, portanto, a apenas 0,53% do conjunto da população.

Porém, um momento… não havia o Spotniks demonstrado que a manchete “20 mil grupos familiares ficam com 70% dos juros da dívida” é falsa, dado que seguradoras (4,6%), fundos de pensão (23,7%) e governo (5,8%) detêm juntos 34,1% dos rendimentos, desmentindo o IPEA? Este dado não deveria estar impugnado?

Eis aqui mais uma das peripécias dos autores: o perfil dos credores da dívida pública disponibilizado na publicação a que respondo é referente ao ano de 2016, enquanto que a pesquisa do IPEA é referente ao ano de 2006, data na qual o perfil dos credores não era sequer divulgado pelo Tesouro Nacional!

Em outra demonstração da imensa honestidade intelectual que os caracteriza, os autores utilizaram o perfil atual de credores para contrapor uma pesquisa baseada em dados de dez anos atrás.

Na sequência, os autores atribuem a Ciro e a Pochmann a responsabilidade pela construção de uma narrativa segundo a qual os governos são meras vítimas passivas de especuladores e banqueiros; tal atribuição não encontra, é claro, correspondência implícita ou explícita nas declarações do político ou do economista, não indo além do achismo rasteiro.

Evidentemente, os agentes do Estado não são peças inocentes e inertes do jogo e podem escolher entre sustentar ou confrontar os interesses dos grandes rentistas, caso contrário não faria sentido que Ciro se colocasse como alternativa institucional a este modelo. Assim, cabe também aos governos a responsabilidade pelo desmonte desta engrenagem que drena grande parte das energias da máquina pública, e o contrário não foi dito por ninguém.

Talvez não seja tão improcedente, portanto, a tese de Ciro de que a dívida pública brasileira é um mecanismo institucional que permanece como está com a finalidade única de beneficiar uma pequena minoria, uma vez que 70% do volume de juros pago pelo Estado na data do levantamento feito pelo IPEA era destinado a apenas 0,53% do conjunto da população.

Com tudo isso, começo a suspeitar que o hábito de “falar o que o ouvinte quer ouvir” não seja característico do ex-governador, mas de seus detratores, já que não hesitam em cometer “erros factuais” (mentiras!?) na tentativa de criticá-lo.

2 – O que é felicidade? Funciona em iOS?

Inicia-se o tópico 2 com a afirmação de que raras economias do mundo comercializam tão pouco quanto a brasileira. Estamos de acordo. Em seguida, fazem menção ao debate travado entre Tom Palmer e Ciro Gomes no Fórum da Liberdade, afirmando que o ex-governador defende, como tese central, uma “espinha”: a tese de que o protecionismo é bom e justificável, pois preserva nossa cultura. A afirmação dos autores não resiste aos fatos, infelizmente.

De início, uma distorção gritante: a atribuição da tese de que protecionismo é bom porque preserva nossa cultura ao político. No mesmo debate, Ciro diz que, em um futuro ideal, a liberdade deve ser um valor absoluto e que fronteiras de qualquer tipo, incluindo as imigratórias, não devem existir. Ou seja, é pura bobagem do Spotniks.

A tese realmente defendida é a de que a política de protecionismo é praticada por todos os Estados nacionais visando preservar as condições internas de empreender e de garantir a competitividade contra empresas estrangeiras em setores nos quais a nação em questão não possua protagonismo internacional.

Tal movimento é necessário, segundo ele, porque não é possível sustentar um certo “padrão idealizado de consumo” sem gerar riqueza internamente, isto é, é preciso agregar valor àquilo que é oriundo da produção nacional (através do setor produtivo, particularmente o industrial) para financiar o passivo do país. Isto não é possível, é claro, se a competição tiver de ser travada livremente (sem encargos) contra as empresas que possuem protagonismo consolidado no mercado global.

Ou seja, a defesa das políticas de proteção é econômica e não se baseia centralmente em “preservação da nossa cultura”. A necessidade de tais políticas é tão gritante que mesmo nos Estados Unidos, principal país defensor da retórica de abertura econômica, o protecionismo é flagrante, como bem apontou o Spotniks.

E quanto à defesa da identidade cultural feita por Ciro no vídeo? Novamente, a defesa feita não é de que protecionismo é bom porque preserva a identidade cultural, ou mesmo de que os brasileiros deixam de comprar carros alemães e americanos para preservar sua cultura, ao contrário do que insinua o Spotniks.

A defesa feita é de que deve-se pleitear a preservação de hábitos de consumo menos hostis ao meio ambiente (como ainda são os do Brasil, em parte por conta do protecionismo, já devidamente justificado em termos econômicos, que limita o consumo exacerbado), cultivando em vez disso um ambiente em que a noção de felicidade seja menos intimamente ligada ao ato de consumir e mais a outros fatores da vida humana.

Em síntese, Ciro Gomes defende a radicalíssima ideia de que a noção de felicidade não deveria se resumir a comprar iPhones e automóveis por preços menores! QUE ABSURDO!

Ou seja, os autores criaram um alvo imaginário e o atacaram, incorrendo na popular falácia do espantalho. Aparentemente, vale tudo, não é mesmo?

3 – Nós entendemos, mas vamos fingir que não

Já no terceiro tópico, os autores afirmam que Ciro Gomes diz, de caso pensado, que o sistema de metas de inflação só existe no Brasil.

De fato, Ciro afirmou esparsamente, durante uma palestra na Universidade Federal de Santa Catarina, que o regime de metas de inflação é um equívoco e que vários países, como os Estados Unidos, o Japão e países europeus não o praticam, em resposta ao estudante que diz, entre outras coisas, que a baixa na taxa de juros e o abandono do câmbio flutuante, feitos por Dilma, foram responsáveis pelos maus resultados na economia.

Fosse essa a tese central e completa de Ciro, não haveria nada mais o que discutir, pois o político estaria enganado.

Logo após fazer a alegação sobre a meta de inflação, porém, Ciro argumenta que “é óbvio que não se pode mandatar um Banco Central para atirar unilateralmente em uma inflação que hoje é de custo e não de demanda”, afirmação que ele utiliza como mote para explicar, em seguida, que a taxa de juros nem sempre tem lastro direto com a inflação, e que portanto é incorreto culpar a baixa na taxa de juros pelo mau resultado.

Este fato nos traz ao que realmente interessa: a crítica feita por Ciro em suas palestras não é à mera existência da meta de inflação, mas à abordagem reducionista praticada no caso brasileiro, no qual a inflação é tratada de modo quase dogmático como função única da taxa de juros, quando há outros fatores relevantes a serem analisados.

Os autores valeram-se, portanto, de uma frase construída sem cuidado e ignoraram o contexto, dentro do qual a crítica feita pelo político possui coerência e coesão, ainda que eventualmente possa estar equivocada.

Assim, Ciro pode muito bem ser repreendido pela falta de cuidado ao construir a tese em questão, mas decerto não é merecedor da pecha de contador de mentiras, pois claramente não é o caso.

Começa a crescer em mim a sensação de que Ciro Gomes está sendo criticado não por dizer “bobagens”, mas por dizer algumas verdades incômodas

4 – Nossa versão sobre o Real: a única real!

O tópico 4 começa estabelecendo as versões de Itamar Franco e de Ciro Gomes a respeito do Plano Real, segundo as quais o protagonismo no Plano não pertenceu a FHC, mas a Rubens Ricupero e ao próprio Ciro Gomes, entre outras figuras como o corpo técnico de economistas.

Em seguida, os autores explicam que é a foto de Fernando Henrique Cardoso que ilustra os livros de história, e que Itamar e Ciro sustentam outra versão dos fatos por se sentirem injustiçados e desaplaudidos, e chegam ao ponto de afirmar que os dois “esqueceram algumas partes da história”, em particular aquelas que os desprestigiam.

Depreende-se, portanto, que o Spotniks acredita que a versão narrada nos livros de história é decerto a mais segura e confiável entre todas. Testaremos mais adiante no texto, em um tópico subsequente, a força desta convicção.

De fato, Itamar Franco, que houvera sido eleito junto com Fernando Collor na campanha que teve PC Farias como tesoureiro, estava no centro dos holofotes e das denúncias que levaram à renúncia de Collor e, por força da ocasião, decidiu fazer um governo de união nacional.

Liderando um governo que não contava com a confiança da população e falhando em controlar a inflação, Itamar vislumbrou em Fernando Henrique Cardoso, então Ministro das Relações Exteriores, uma figura capaz de ser a face pública de um novo esforço de estabilização da moeda, uma vez que o chanceler desfrutava das imagens de homem público respeitável e de intelectual capaz e afamado.

FHC assumiu a pasta em circunstâncias inusitadas, uma vez que foi nomeado oficialmente antes mesmo de aceitar o convite de Itamar Franco; na época, o chanceler tinha receio de assumir a função, uma vez que a Fazenda era menos relacionada à sua área de formação acadêmica que as Relações Exteriores.

O primeiro questionamento de fato às versões de Ciro e Itamar, para além das acusações avulsas, surge a partir da afirmação de Ciro de que ajudou a montar a equipe de técnicos responsável pelo Plano Real; tal corpo técnico era composto majoritariamente por economistas notáveis da PUC-Rio.

De fato, coube a FHC a convocação da equipe para o Ministério da Fazenda; os autores esquecem, entretanto, de mencionar qual circunstância havia agregado a mesma equipe antes mesmo que FHC assumisse a nova pasta.

Ciro Gomes, na época o único Governador eleito pelo PSDB, estava auxiliando seu companheiro político Tasso Jereissati, então Presidente Nacional do PSDB, na preparação de uma plataforma econômica para uma natural candidatura deste último à Presidência da República, que entretanto jamais se concretizou. Para cumprir a complexa missão, os dois reuniram alguns dos mais qualificados técnicos do país, esforço que resultou na formação da equipe que viria a ser convidada à Fazenda por FHC.

Paralelamente, também é atribuída a FHC a ideia “inovadora” de um Plano definitivo para resolver o problema inflacionário, o que faz pouco sentido histórico, uma vez que outras medidas com o mesmo intuito já haviam sido tentadas anteriormente, como mencionado pelos próprios autores.

Sem entrar no mérito dos detalhes técnicos do plano, pensemos: FHC não foi responsável pela elaboração do plano em si, uma vez que tal tarefa coube ao corpo de economistas; seu papel era, para além de ser o fiador público do Plano, angariar apoio de outras lideranças junto aos demais políticos que compunham, assim como equipe técnica, o núcleo de sustentação do Real, a saber: Mário Covas, Ciro Gomes e Tasso Jereissati e José Serra.

Assim, se havia qualquer tipo de risco para FHC, era o risco de uma mancha em sua biografia pessoal. Entretanto, não esqueçamos que era Itamar Franco o maior pilar da empreitada de estabilização da moeda, e seria ele o responsável de fato, aos olhos da opinião popular, caso a tentativa fracassasse.

Ora, se FHC não concebeu tecnicamente o Plano e não era o maior responsável político pelo mesmo, por qual razão os créditos pelo Real deveriam ser entregues a ele de maneira tão exclusiva?

Mais do que isso, como é possível afirmar que seu primeiro mandato foi ainda mais crucial para a estabilização, se no período parte dos procedimentos vitais ao país foi negligenciada com fins eleitoreiros, vide manutenção da paridade entre o real e o dólar, levando à queima de bilhões de dólares das reservas do país?

Os autores também afirmam que, “segundos relatos”, Ciro esperava permanecer no Ministério da Fazenda, e que ao ter o cargo recusado rompeu com FHC.

Visto que o ex-governador exilou-se do país durante mais de um ano após este episódio, mesmo desfrutando de popularidade mais que suficiente para eleger-se deputado ou outra função qualquer que lhe interessasse, uma vez que estava entre os mais bem avaliados governadores do país, a acusação também não tem aderência com a realidade, sendo preferível crer na versão por ele contada, segundo a qual a razão para o rompimento foi a aliança feita com o então PFL, atual DEM, que feria contundentemente o ideário sobre o qual foi fundado o PSDB, com participação ativa de Ciro.

Em suma, é fácil perceber que os autores assumem, muito oportunamente, que a versão contada pelos livros é em absoluto verdadeira, uma vez que esta corrobora inteiramente a sua argumentação.

Desconsideram que, em história, o controle da narrativa da realidade é também obtido através de disputa, isto é, a história não é meramente um aglomerado de fatos, mas um aglomerado de versões sobre os fatos, cabendo sempre questionar todas as versões disponíveis.

A firmeza desta crença nos livros de história será posta à prova em um tópico subsequente, como prometido.

5 – Concordamos em tudo, mas permita-nos discordar

No tópico 5, o texto quase alcança seu apogeu no fator comicidade (mas ainda não chega lá!).

Em uma tentativa atrapalhada de desqualificar a defesa do modelo sul coreano levada a cabo por Ciro em suas palestras, os autores terminam por entrar em concordância com as afirmações do político, embora o objetivo fosse vilipendiá-las.

Já foi frisado anteriormente que Ciro Gomes defende uma atuação coordenada entre Estado e iniciativa privada, esta como motor de alocação ótima de recursos e aquele como instrumento regulador da economia e impulsionador do desenvolvimento através de mecanismos específicos.

Naturalmente, a experiência bem sucedida dos tigres asiáticos serve de inspiração para as propostas do político, que representam um ajuste do modelo desses países às especificidades do Brasil.

Os economistas Otaviano Canuto e Dani Rodrik trataram extensivamente da questão do desenvolvimento sul coreano, de modo que quem estiver mais agudamente interessado pode consultar seus trabalhos.

Canuto sustenta, com evidências, a tese de que o Estado sul coreano patrocinou um processo evolutivo (no sentido darwinista do termo) de apoio à iniciativa privada, durante o qual várias empresas faliram e foram abandonadas.

Subtraída a afirmação simplista de que “basta deixar que o Estado resolva e escolha os melhores”, tese dos autores e não do político, a proposta para o Brasil é clara e pode ser encontrada com maior detalhamento nas palestras do ex-governador.

Quanto ao texto, é necessário contrapor apenas um dos pontos levantados pelo Spotniks: não foi com o modelo sul coreano em mente que o governo brasileiro se propôs a financiar os assim chamados “campeões nacionais”.

Diferente do que lá foi feito, o que se praticou no Brasil foi meramente uma série de salvamentos de empresas falidas e um possível beneficiamento de grandes financiadores de campanha, uma consequência comum do (lamentável) modelo de financiamento privado vigente, que é também alvo das críticas do ex-governador.

A fusão de grandes empresas de telecomunicações (BR Telecom e Oi) foi uma operação de salvamento. A Fibria (indústria de papel e celulose) nasceu da fusão entre as empresas Aracruz e Votorantim após a crise do subprime no ano de 2008, que impactou todo o planeta, isto é, trata-se de mais uma operação de salvamento.

Já o grupo EBX (de Eike Batista) e a JBS (indústria alimentícia) foram e são grandes financiadores de campanha de políticos de todas as orientações e partidos, e é bem sabido por todos o que isso representa na prática, portanto não há nada de espantoso no fato de terem sido incentivadas. Este padrão é repetido em grande parte dos investimentos governamentais realizados.

Adiante no texto, o que acontece é uma celebração de absoluta concordância entre os autores, o político e a realidade: a empreitada brasileira fracassou.

E por que fracassou? Para além das contradições e falhas já explicadas anteriormente, as razões para a falha foram muito bem explicadas pelo próprio site: criamos leis de conteúdo nacional em vez de adotar isenções tarifárias nos setores que deveriam servir de insumo para a indústria que deveria nascer.

Mais do que isso, a política de investimento em “campeões nacionais” não foi acompanhada de massivo investimento em educação, diferentemente do que ocorreu no caso sul coreano. Por fim, fomentamos oligopólios ineficientes em vez de estimular a competição com o mercado externo (tal competição não ocorreu, na Coréia do Sul, à revelia de qualquer critério ou intervenção estatal, evidentemente).

O ex-governador concorda, naturalmente, com tais apontamentos, uma vez que caracterizou a empreitada brasileira como “uma gastança estúpida” em pelo menos uma ocasião.

Concordamos todos!

Ora, já há consenso quanto às falhas e o político já ofereceu propostas de solução que parecem ir ao encontro do que pensam os autores! Não é incrível!?

Na tentativa de aplicar o golpe final na tese de que o Estado interventor é um entrave à formação de riqueza e ao desenvolvimento, os autores afirmaram, baseados em um artigo, que “a intervenção do governo na escolha de grupos locais pode ter contribuído com a queda de até 1% do PIB anual do país”.

Quem se propuser à tarefa de ler o artigo verá, porém, que a crítica é muito mais local e questionável: trata-se de uma análise retroativa e hipotética, baseada em métodos matemáticos (em termos simples, uma tentativa de escrever, através do instrumental matemático, uma história que não aconteceu), um tipo de estudo cujas conclusões são frequentemente criticadas por estarem sujeitas a interferências ideológicas.

Além disso, a análise diz respeito somente às intervenções diretas do Estado na escolha de grupos locais, ou seja, não questiona o arcabouço estatal de controles cambiais e de moeda, estruturação dos sistema bancário (nacional) e de empresas multinacionais, modos de financiamento etc. – interferências que os autores, neoliberais, decerto consideram indevidas, mas que foram absolutamente fundamentais para que a Coréia do Sul obtivesse êxito. Um contraponto mais completo ao artigo pode ser encontrado aqui.

Ou seja, houve ampla interferência estatal no caso sul coreano e até mesmo os autores já admitiram que foi um sucesso! É mais um ponto de convergência entre eles e o ex-governador!

Diante de tão flagrante concordância, as más línguas já estão dizendo que o Spotniks cogita incentivar seus leitores a votar em Ciro Gomes em uma eventual candidatura no ano de 2018…

6.  O Estado onipotente: neoliberais ou fascistas?

O apogeu da comicidade do texto é atingido no tópico 6.

A distorção começa a partir do título: “O Estado brasileiro só investe porque o empresário tem medo”, sugerindo que a afirmação de Ciro mantém-se para o tempo presente. Não é o caso, evidentemente.

A declaração, feita mais recentemente em palestra na Universidade Federal de Uberlândia, refere-se às primeiras décadas do século XX, quando se iniciou o processo de industrialização do Brasil.

Para os autores, a declaração de Ciro é mentirosa porque a tese de que a industrialização se deu através da ousadia de um presidente com ares progressistas, que desafiou a elite agrária e apostou na modernização do país para libertá-lo, é apenas um mito largamente difundido.

Ainda de acordo com os autores, contar a história do Brasil através de líderes políticos talvez seja um dos maiores equívocos da nação pois, segundo os mesmos, aprende-se na escola que temos a siderurgia, o petróleo, a mineração e as grandes indústrias graças ao governo e apenas a ele.

E aqui reside o fator de comicidade da argumentação.

Primeiro, comete-se uma generalização grosseira ao dizer que aprendemos na escola que é somente por mérito do Estado que existe a indústria nacional; não foi esta a minha experiência escolar, ao menos, e ouso dizer que também não foi a de muitas outras pessoas.

Além disso, vejam só: a historiografia oficial, segundo a qual a iniciativa de Getúlio Vargas em associação a outros grupos sociais, no pós-30, teria erguido as bases do que viria a se tornar o setor industrial do país, de repente é contestável e sustenta “mitos”.

Ora, mas os autores não eram defensores contundentes da versão oficial dos fatos, sobre a qual baseiam inclusive a defesa de Fernando Henrique Cardoso como figura mais importante na concepção e na implantação do Plano Real?

Ao colocar em dúvida, nesse contexto, a confiabilidade da historiografia oficial, o Spotniks revela o óbvio: para eles, os fatos não são importantes, e a versão oficial da história pode ser exaltada ou desprezada ao sabor do vento, conforme ela se ajuste ou não à conveniência dos autores; se concorda com o que pensam, deve ser exaltada, e se contradiz o que pensam, deve ser desprezada, pois sustenta “mitos”.

A confiança nos livros de história não era tão grande, afinal…

Os autores discorrem, em seguida, sobre como a iniciativa privada foi negligenciada e tolhida pelo governo (que fez movimentos de expropriação e estatização a fim de substituí-la), embora tenha sido pioneira em certos setores.

Parecem querer provar, através de tais apontamentos, que o Estado não foi impulsionador do desenvolvimento industrial, mas um entrave ao mesmo, e que tudo teria acontecido mais rápido e mais eficientemente, não fosse a maquiavélica interferência estatal.

No entanto, é um mito largamente difundido, aliás, digo… é sólido e fartamente documentado, na academia brasileira, o consenso de que o desenvolvimento industrial e integração nacional ocorridos na época não poderiam de modo algum prescindir da mediação estatal, uma vez que era necessário acomodar os interesses das oligarquias locais (ainda muito poderosas, apesar de centralização do poder na figura de Getúlio), criar e fortalecer um mercado interno, fazer a mediação com os capitais do exterior e consolidar uma política de proteção à indústria que nasceria, tarefas executáveis somente a partir de um Estado bem consolidado.

O Spotniks ignora, portanto, que o “medo de investir” de fato existia, uma vez que a iniciativa privada jamais fez, sozinha e por seus próprios meios, um movimento geral de integração e desenvolvimento do país, com investimentos massivos e coordenados para superar os atrasos e assimetrias globais, tendo se limitado apenas a empreendimentos locais; e com isso já não falo do caso brasileiro no século XX, mas de toda a história econômica do mundo.

No afã de atacar a caricatura grotesca e infantil de um Estado todo poderoso e definidor, ele mesmo, dos rumos das políticas públicas e que falha sempre e toda a vida, o Spotniks ignora a própria história da humanidade e esquece o que de fato é, na prática, o Estado: um corpo político formado por diversos interesses em franca e aberta disputa, que tem por função a tarefa civilizatória de mediar os conflitos através de sua linguagem, que é a política, tão satanizada pela propaganda neoliberal.

7. A quem serve a tua mentira?

O tópico 7 é inteiramente baseado na premissa de que Ciro Gomes é um defensor da política de subsídios e privilégios praticada durante os últimos anos.

Já foi explicado extensiva e exaustivamente que o projeto nacional de desenvolvimento defendido por ele não guarda semelhanças concretas com o Programa de Sustentação de Investimentos (PSI), popularizado como “política de campeões nacionais” e que, em vez disso, a proposta do ex-governador é inspirada no modelo de desenvolvimento dos “tigres asiáticos”, sendo a Coréia do Sul o seu exemplo preferido.

Assim, não cabe a Ciro a responsabilidade pelo fracasso do PSI ou pelos prejuízos e casos de corrupção relacionados ao programa, uma vez que o político não foi partícipe de tal empreitada.

Como último ataque, os autores fazem menção à montadora Gurgel, falida em 1993 por várias razões, uma delas sendo o cancelamento de um empreendimento que estava em curso no Ceará, durante gestão de Ciro Gomes como Governador.

Na época, o salto que levou a montadora a prospectar a construção da fábrica cearense era considerado por muitos como desnecessário e arriscado, isto é, muitos supunham que não fosse o momento adequado.

Ciro se defende, ao ser responsabilizado pela falência da montadora, afirmando que suspendeu o financiamento porque a empresa não honrou o compromisso de seu primeiro empréstimo com o estado – porque, surpresa, foi o que ocorreu! -, independente do juízo que os autores fazem sobre a justificativa.

O Spotniks conclui, a partir disso, que ou Ciro é um mentiroso e sua justificativa é falsa, sabe-se lá por qual razão, ou que Ciro defende políticas erradas, já que a empresa faliu, a despeito de certo volume de investimento feito pelo Estado. Para os autores, não há outra interpretação possível. Segundo sua visão religiosa da realidade, “interferência estatal” é sempre uma mesma ação, com interpretação e resultado fixos e imutáveis.

Desconsideram, muito convenientemente, as medidas instituídas durante a administração Collor, como a liberação de importações de veículos, enfraquecendo o protecionismo e prejudicando a crescente indústria nacional (viram? É o que sempre acontece!), favorecendo no processo grandes montadoras internacionais.

Desconsideram a greve de funcionários da alfândega brasileira no ano de 1991, que impediu a chegada de componentes da Argentina e quebrou o ritmo de produção de automóveis, desregulando o fluxo de caixa e causando o acúmulo de dívidas pela Gurgel.

Desconsideram tudo o que contrapõe, mesmo que remotamente, a sua narrativa enviesada dos fatos.

Se o Estado protege a indústria nacional, está errado. Se o Estado fragiliza tal indústria em benefício do consumidor e promove mais da livre concorrência tão calorosamente requisitada pelos partidários ideológicos dos autores, permanece sendo culpado.

Francamente, até onde vão o dogmatismo neoliberal e a desonestidade intelectual dos autores?

O Spotniks demonstra, ao publicar um texto com tantas inverdades e tantas distorções, que funciona a serviço de interesses e narrativas muito escusas e particulares da realidade. Não há compromisso com a informação correta, não há compromisso com a análise honesta e não há compromisso com o debate honrado, ainda que acalorado e, por que não, ácido.

Há comprometimento apenas com a polêmica, com os holofotes e com o número de likes e compartilhamentos que um artigo tão difamatório pode angariar.

E a polêmica, senhores, não possui nunca compromisso com a verdade, pois é uma máquina de culpar; uma máquina moral e não racional, que atende a interesses que, espero, estão agora um pouco mais visíveis após essa resposta.

Aguardo o dia em que o debate público será travado, no Brasil, entre os partidários da boa tradição liberal e os de outras visões diversas, tendo a honestidade e a humildade intelectuais como princípios norteadores, e não entre emissários de um dogmatismo insensato que segue falhando onde quer que seja tentado e caricaturas desenhadas por tais emissários.

Até lá, sigamos na lida contra tanta distorção e tanta má vontade para com as coisas e pessoas do país. E até que este sonhado dia chegue, seguirei fazendo coro com alguns colegas de uma pretensa nova esquerda que tem tomado corpo e forma:

Neoliberais mentindo deliberadamente: não há nada de novo sob o Sol.

Texto de Gabriel Fernandes, encontrado em AnoZero

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7 comentários sobre “Em defesa de Ciro Gomes: uma resposta ao Spotniks

  1. Muito bom o esclarecimento. Esse Spotniks só engana trouxa. Portam-se como isentos, mas são mais do mesmo da velha direita atrasada brasileira. Vestem-se de “pop”, mas é pura natflatina do pior da direita do Brasil. Parabéns por colocá-los no devido lugar. E vamos juntos! Ciro 2018!

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  2. É uma pena o Spotniks fazer uma matéria tão desonesta e distorcida dessa contra o Ciro e, o pior, com a tentativa de desqualificação. Eu gostava do Spotniks achava que era um site que tentava expor suas ideias, mas depois dessa vi que eles tem compromisso com mentira.

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  3. Gostei muito de ver uma postagem aqui que defenda Ciro das mentiras da direita.
    Torço para que Lula tenha um pingo de bom senso e deixe de se candidatar em favor de Ciro, muito mais progressista e muito mais à esquerda do que Lula e o PT, como podemos ver em suas recentes palestras pelo Brasil.

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  4. O que eu percebi aqui foi uma tentativa esdrúxula de tentar justificar as bobagens ditas pelo Ciro Gomes. Analisei caso a caso. Não fiquei convencido. Ainda continuo achando que Ciro gomes só fala merda. Os Spotniks podem até, eventualmente, ter cometido algum vacilo em relação a datas, dados, etc. mas jamais fugiram do principal, do âmago das questões.

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